"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

21 junho 2006

Para além das possibilidades

Eu poderia ficar horas e horas na frente desse monitor tentando encontrar as melhores palavras. Mas não vou fazer isso. Decididamente não hoje. Depois de 9 meses, chegou a hora de encerrar este blog. O mundo de possibilidades, construído no período de “gestação” me ajudou a “parir” um mundo de certezas. Ele já cumpriu o papel para o qual foi criado. Dele quero guardar os 70 textos postados, como se guarda papéis e fotos queridas dentro de livros. Quero que eles fiquem esquecidos (esperando o tempo certo?) na estante e só quando prontos desabrochem de novo. Guardar para lembrar que vivi... acumular estímulos para fazer sentido.
Aconteceu o que eu esperava há muito tempo, mas de forma mais consciente há um ano. Um lampejo, um gosto diferente na boca: doçura? Magia? Procurei no dicionário o sentido exato da palavra renascimento. Mas não me convenceu. O que sinto agora não pode existir como linguagem, léxico, nexo... é meu, é íntimo e privado. É como música que se ouve sorrindo (e até chorando), doce que se come escondido, segredo que se move intacto através dos dias.
Mas o fato é simples, não histórico. Não merece manchetes de jornais ou teorias elaboradas. Respeita um tempo único, próprio dos recomeços. Desafia o espaço, o traçado preciso dos mapas, os limites territoriais da minha vida que, até então, parecia limitada. É capaz de provocar gemidos longos e até emoções desencontradas. Mas respeita uma lei universal. Não necessita de tradução, manual de instruções ou bússola. Carece apenas de um pouco de atenção, esmero ao passar uma camisa, cozinhar um alimento, apontar um lápis...

O que começo a sentir agora desafia a linhagem de uma dinastia inteira. Atravessa istmos, rompe barreiras, funda civilizações. Não cabe em velhos navios nem no fundo dos oceanos. Mas pode ganhar abrigo numa caixa ricamente adornada, onde antigos papéis repousam, guardando a memória do mundo. Chamam isso de muita coisa. Prefiro acreditar que tudo não passa de sentimento que, indo além da inteireza do corpo, consegue tocar a alma. Puro e cristalino como o susto e a calma.

Silêncios necessários

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