"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

11 maio 2006

Certezas

Quando a luz que teimava adentrar pelas frestas da persiana tocou serenamente meu travesseiro, percebi que a manhã chegara rápida demais. Subitamente, antes mesmo que a dúvida viesse de encalço para nunca mais partir, algo estranho aconteceu. Olhei pro céu e aspirei profundamente o cheiro daquela manhã de domingo. O que havia de especial nela? O que me mantivera acordado velando o sono de quem estava ao meu lado durante a madrugada? Quem estaria disposto a responder qual o sentido daquilo tudo?
De uma forma ou de outra, me dei conta que estava procurando por algo que fizesse todas as minhas dúvidas passarem devagar, como as primeiras nuvens que se dissipavam no céu alaranjado. Repentinamente senti-me intensamente vivo, com uma urgência doida de ficar olhando toda a cidade acordando quieta e imersa em seus universos pessoais, tão grandes quanto o meu próprio.
Como quem não se sente mais sozinho em um mar de interrogações, fiquei em paz com tudo aquilo, sereno e confortável por estar vivo, sentindo-me parte de uma grande conspiração que incluía até os seres mais inconstantes e duais como eu. E todas as incertezas deixaram de ser cabíveis, e todas as respostas pareciam desnecessárias, ao menos naquele instante. Assim como o amor e o ódio podem ou não mover minha vida sem que eu os veja, apenas sentindo, eu contemplei minutos tão raros quanto intensos, sem provas, sem rastros... me importando apenas em saborear a certeza daquela sétima manhã de maio: desta vez tudo será diferente!

Mundo possível

Não vou deixar essa fagulha insubstituível que arde dentro de mim nos pântanos da desesperança, do não-é-bem-isso, do ainda-não, do não-de-forma-alguma. Não quero, no futuro, que minha alma perceba a solitária frustração pela vida que eu merecia, mas que nunca fui capaz de alcançar.
O mundo que eu desejo pode ser tocado.
Ele existe.
É real.
...e possível.