"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

30 março 2006

Na fila

A imagem era delirante: um mar de pessoas, todas organizadas de forma caoticamente controlada, esperando por atendimento. E foi nessa hora que iniciei um exercício que provavelmente irritaria Buda: peguei uma senha e sentei (com sorte, porque o número de assentos é sempre menor do que o número de almas suplicando por atendimento). Mas com agilidade consegui chegar à cadeira antes da pessoa que acabara de passar por mim na entrada (às favas com o cavalheirismo).
Meu número é o 52 e percebi que o placar eletrônico chamou o 30. Nada mau.
E aí, de frente para os guichês, a diversão de fato começa. São cinco, e apenas dois estão funcionando. Os outros três, solenemente vazios e eu já começo a balançar a perna impacientemente.
Mas nem tudo estava perdido. Logo percebi que uma terceira funcionária tinha voltado. “Agora a fila vai andar” – pensei bem “alegrinho”. A funcionária chegou, cumprimentou muito amigavelmente seus colegas e mostrou que é, afinal, capaz de sorrir.
Para os colegas (que fique bem claro!).
Andou até o seu guichê e quando imaginei que ela ia chamar o próximo da fila percebi que ela, na verdade, ia fazer algo muito mais fundamental: verificar se havia grampos no grampeador. Com a agilidade de movimentos de um homem na lua, abriu o grampeador e constatou que havia grampos. Mas não em número suficiente. Então ela foi até os outros guichês. Enquanto isso, eu já balançava não apenas uma, mas as duas pernas. Ela, então, achou os grampos e voltou ao seu lugar.
Finalmente chamou uma próxima alma, que se arrastou até o guichê, posição de humilhação, porque, a essa altura eu já está disposto a beijar qualquer pé pela cópia do documento que eu precisava. Depois de quase uma hora e meia, meu número foi chamado. Com um suspiro de alívio, de um salto só me posicionei na frente do guichê de atendimento. O homem não sorriu e pareceu não ter expressão ao verificar meus documentos.
- Onde está o comprovante de votação na última eleição?
- Está aí - eu disse sorrindo, parecendo ser simpático, já prestes a gaguejar.
- Você não votou no plebiscito do desarmamento?
"Merda. Então era essa a última eleição!" - pensei.
- Votei, votei.
- Então onde está o comprovante? Sem comprovante não podemos fazer nada.
Sem fala e sem ter a mais remota idéia de onde poderia ter colocado aquele “maldito” papel de medidas microscópicas pude fazer uma constatação importante: o homem sorriu. Foi um riso contido, de canto de boca, mas um sorriso.
- Próximo!
Querendo chorar, eu atravessei a rua repetindo silenciosamente todas as situações que me irritam e que eu consegui listar enquanto esperava na fila. Antes de chegar no ponto, pude ver meu ônibus passar por mim. Foi nesta hora que perdi a fé na humanidade.