"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

09 fevereiro 2006

Crise de Choro

Ontem eu chorei. E eu nem ao menos consigo lembrar da última vez em que havia chorado daquele jeito. Lágrimas me escapam com freqüência, mas eu quase nunca choro pra valer. Não é uma escolha consciente, algo que faça baseado em besteiras do tipo “homem não chora” e outros tabus. Contudo, eu até vivencio certas angústias que merecem algumas lágrimas. O adjetivo “emotivo” me cabe e, ainda assim, eu continuo chorando pra valer com a mesma freqüência dos eclipses solares.
Todavia, o estopim de minha crise de choro ontem foi a angustia de mais uma madrugada às claras depois de ver pela segunda vez um filme que abalou minhas estruturas na sexta-feira. Desde então eu não fui tocado e sim possuído por uma rara inquietação que revirou minhas entranhas...
Já estava tarde. Eu teria de acordar às 6:45 da manhã para mais um dia de trabalho. De repente, com um movimento brusco me sentei na cama e desatei num choro descontrolado. Fui invadido por um sentimento doído, como se o último vínculo que eu tinha com minha infância estivesse para ser enterrado em poucas horas; Como se tudo que eu fui e sou estivesse com um prazo de validade etiquetado em um idioma por mim incompreensível. Chorei por antecipação por tudo o que eu não vivi e por tudo o que não vou viver. Pelo medo de ficar só. De terminar apenas meio e não inteiro.
As lágrimas me venceram, e pensei: choro quando não consigo mais racionalizar a minha dor, seja por insuficiência da própria razão, seja por entregar as armas cansado demais para lutar com esta minha teimosia. Muito das minhas dores acabo parcelando em textos, conversas interiores e outros escapismos. Se a coisa toda for muito bem distribuída, o choro se perde no limbo das tristezas (uau! Falei difícil agora). O resto é liberado em lágrimas, raras, mas explosivas. E é justamente por isso que eu possuo crises de choro. Crises! Não é algo que eu consiga pressentir como a grande maioria. Isso deve ser um reflexo de como eu lido com tais situações. Se eu não consigo racionalizar algo, eu choro.
“Preciso chorar mais”.
Vixi! Como essa frase soa piegas. Ocorreu-me agora que isso não deve ser algo que se trace como meta. Ontem eu chorei porque, dentre as milhões de palavras e sentimentos existentes do mundo, eu não fui capaz de encontrar um sequer que pudesse me servir de consolo. Eu que sempre esperto, com tantos discursos lógicos, não construí argumentos convincentes o suficiente para me impedir de concluir certas verdades sobre mim mesmo e minha vida.
Há de ser bom, de alguma forma, saber que chorar pode ser uma resposta válida para questões aparentemente sem alternativas. E sendo assim aceito com um certo alívio o fato de que absolutamente nada está sob o meu controle, seja essa coisa, uma nave espacial ou um pingo de aquarela sobre o papel.

3 Comments:

Anonymous silvio said...

Lembre-se apenas, meu amigo, que se você chora, não chora sozinho.
Alguns de nós somos Quixotes brigando com moinhos adormecidos, mas enquanto estamos vivos, mudamos as coisas.
Nem sempre nos sentimos inteiros porque a vida não é mesmo pra ser inteiro...é pra ser dinâmica, processo, caminho para chegar a algo ou algum lugar. Você é um cara brilhante, orgulho-me de você a cada dia e a cada texto.
Chorar (e admitir o choro) é uma válvula necessária pra darmos conta desse mundo que anda tão confuso, e às vezes, tão superficial.
Mas lembre-se... você não chora mais sozinho. Gde abraço e que Deus o abençoe.

quinta-feira, 09 fevereiro, 2006

 
Anonymous Hugo Leonnardo said...

Realmente vc nao chora so! Se o filme for o mesmo que eu vi e que, se nao me engano vi vc sair do cinema, eu tambem, e olha que me achava tranquilo quanto a muita coisa que o filme provoca, nao contive minhas lagrimas. Ate hoje minhas retinas nao deixaram escapar as imagens daquela estória de vida. Sim, aquilo é como se parassemos pra observar algum de nos. De tão sutil e sensivel, é real, mesmo sendo conto. Os nossos medos, nossas angustias, gestos, esplosoes, carinhos e vontade de carinho, as fulgas, os sorrisos, aqueles breves eternos momentos felizes... são o que somos. Sai chorando. Mesmo que rindo pra espantar a tristeza, chorava em mim mesmo. Chegamos na casa do Jo e percebemos nao ter chave pra entrar. Tivemos de ir dormir na casa de uma amiga. Fomos na chuva. Eu me aliei com a agua pra deixar que meus rios esvaissem. Chorei todo o caminho. Entre conversas e analises de dois amigos tentando minimizar os efeitos do filme. Chorei deitado na cama por quase uma hora antes de dormir. Como quando criança e levava bronca ou apanhava pra dormir. Levamos todos uma surra de uma estória que é nossa. E escolhi ser aquele que vive o suficiente pra nao se arrepender. Pra nao ser necessario dizer que promete apos aprender da pior maneira que temos uma unica chance. Uma unica vida. Bjos. Gostei de receber suas partilhas. Acho que nos aproximamos agora, pelas lagrimas e semelhanças.

sexta-feira, 10 fevereiro, 2006

 
Anonymous Naira said...

"Chorei por antecipação por tudo o que eu não vivi e por tudo o que não vou viver. Pelo medo de ficar só. De terminar apenas meio e não inteiro."

Nossa Wolney! Que lindo isso! Cada dia que passa, convenço-me mais de que você PRECISA publicar um livro.

E fiquei com vontade de chorar também, só por ler o seu BLOG.

domingo, 12 fevereiro, 2006

 

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