"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

09 fevereiro 2006

Bendita Carta

Hoje amanheci com vontade de escrever carta (mais do que de receber). Mas não queria escrever carta pra ninguém muito íntimo. Minha vontade era que o destinatário fosse só um conhecido. Matutei por um tempo e de repente Deus me pareceu uma escolha óbvia.

Entre tantos questionamentos que eu me faço, achei que seria uma boa hora pra esclarecê-los. Então lá estava eu, pronto para ter uma conversa de criatura para criador.
Imediatamente peguei lápis e papel – nada de computador desta vez (com Ele tudo tem que soar da forma mais natural possível) – e comecei a escrever (com perdão do trocadilho) a bendita cartinha, a primeira para um destinatário tão influente.

Exercitando o lado b de uma descrença crônica e fazendo uso de minha letra rebuscada, em poucas palavras expliquei tudo o que eu amava e tudo o que eu odiava em sua criação. Entre reclamações e elogios, preferi deixar as grandes questões existenciais de lado. Não iria aborrecê-lo com isso (Ele nunca responderia mesmo). No lugar do trivial, agradeci por eu ser quem eu sou, por saber desenhar, mas reclamei por não tê-lo conhecido melhor antes. Quis saber se algum dia eu chegarei a tocar algum instrumento (violão não vale!). Perguntei também porque os meus temores são como são e se as pessoas que representam o/s meu/s objetos de desejos se empolgariam se eu lhes escrevesse uma carta também. Em uma pequena observação mandei um forte abraço ao seu Filho mais ilustre e, por fim, ainda sobrou tempo para uma última pergunta: “O Demônio existe?”.

Dobrei o papel cuidadosamente e guardei-o dentro do envelope onde escrevi “Para Deus – Endereço: Céu”. Achei que isso bastaria. Quanto ao remetente, preferi deixar em branco, afinal ele é onisciente. A única dúvida era como eu faria para que a carta chegasse até sua caixa postal. Não queria passar por ridículo entrando em uma agência de correios e, mesmo que fosse possível, sairia muito dispendioso. Imagine quantos selos seriam necessários para que a carta fosse entregue em seu destino?

Foi aí eu tive uma idéia. Achei por bem queimar a carta. É claro que todas as letras se transformariam em fumaça e chegariam até Ele. E assim foi feito. Queimei-a ao ar livre e a fumaça subiu calmamente em direção do céu (como uma oferta de incenso). A carta queimou por completo não restou nem mesmo uma cinzinha básica. Tudo virou fumaça, dissipando-se pro alto.
Duvido que Deus não tenha recebido minha carta.
Agora eu continuo por aqui, a espera de uma resposta.

3 Comments:

Anonymous Raí said...

Sabe, durante um tempo eu escrevi cartinhas para Deus e guardava por um tempo, às vezes, anos depois eu as reencontrava e via que tudo aquilo tinha se resolvido.
Com o advento dos computadores eu passei a gravar arquivos... e continuaram funcionando.

Eu tenho certeza que Ele vai responder, da melhor forma, acredite!

E acreditar é fundamental.

Um grande abraço,
Raí.

quinta-feira, 09 fevereiro, 2006

 
Anonymous Naira said...

Nas primeiras linhas, antes de ler sua pergunta sobre o dêmo, coisa ruim, sai pra lá coisa feia... eu pensei: "Deus existe?".

Inteligente você ter pensando em dissipar a carta como fumaça. Engraçado que me remeteu às fogueiras da Santa Inquisição, à bruxaria, macumba, essas coisas...

Talvez a Naira deixasse na Igreja, sem que ninguém visse.
Beijo-te.

domingo, 12 fevereiro, 2006

 
Anonymous Anônimo said...

Amei o seu blog. Adoraria receber uma carta sua. Sou alguém desconhecida: Deborah R.B. - Rua Caraíbas, 172 - Perdizes - São Paulo (CEP: 05020-000)... se receber respondo. Após ver o comentário o delete. Abraços.

sábado, 06 fevereiro, 2010

 

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