"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

26 janeiro 2006

Não sou, estou sendo.

Eu não sei falar não, nadar de costas ou compor sonetos.
Mas sei arrebentar o joelho, cortar reto usando a tesoura e ter pensamentos eróticos no meio da missa.
Sei ficar acordado conversando no MSN até às três da manhã e depois dormir sem tomar banho ou escovar os dentes.
Não, não tenho coragem de matar galinha, mas já matei escorpião. Já comi unha, já tive meningite tipo C e já fingi que estava dormindo.
Não sou um santo porque na realidade sou frio, sádico... e sim! Eu fico nervoso!
Tenho muita preguiça, não sou determinado, mas quando quero vou até o talo, quando me convém piso no seu calo.
Já cometi os 7 pecados capitais. E ainda cometo.
Já traí, já desconfiei de Deus e descumpri promessas. Já gostei de milhares, não me arrependi de nenhum.
Ainda me proponho desafios, mas a opinião alheia me incomoda e pode mudar meus rumos. Sou um maria-vai-com-as-outras que sempre busca opinião própria para cada momento vivido. Sou incoerente assim e detesto ter que ficar pararicando crianças de colo.
Já fui criança e agora sou uma pessoa romântica, muito sentimental. Já fui namorado e agora sou amante. Acredito no amor e na compaixão, mas sou mais amigo de mim mesmo do que de você, seja lá quem esteja lendo, pois sou eu sozinho que resolvo todos os meus problemas. Odeio conselhos que não quero ouvir embora os ouça sempre.
Adoro ficar sozinho, necessito ficar sozinho, mas não quero terminar o filme sozinho. Não quero me casar ou ter filhos, mesmo que estes nasçam com data de validade. Quero morar na Itália, quero ser mais místico, quero ser mais porra-louca e quero fazer da fidelidade um caminho pra viver um amor inclusivo (cf. Sílvio Vinhal). Quero ser mais indisciplinado, quero comprar todos os dvd’s com os desenhos da Disney só pelo prazer de tê-los. Quero congelar o entardecer e aprender a dirigir pra viajar pela rodovia sem rumo ouvindo “Learning to Fly” bem alto. Quero aprender todos os dias, quero errar muito ainda e deixar meus ombros mais largos. Que minha paciência para os detalhes me faça dar um passo para trás para dar dois à frente. Já fiz muita cagada ontem para hoje aprender como se faz certo. Não sou, estou sendo.

24 janeiro 2006

Fortaleza da Solidão

Motivações externas:
- O título de uma música de filme: "A love that will never grow old"
- Uma frase dita pela Naira: “Quando a gente começa a amar... a gente simultaneamente começa a perder”
- Um final de tarde de janeiro...

Motivações internas:
Por trás de algumas nuvens, posso acompanhar o suicídio do sol. São oito horas (maldito horário de verão!). Um caderno de rabiscos, um bom tempo olhando a cidade pela janela, acompanhando as cores pásteis do entardecer. Na minha filosofia de alcova, meus rituais de solidão começam todos com pensamentos no amanhã. Chama-me atenção a solidão vislumbrada ao projetar meu futuro.
Desapontado disfarço o sorriso sarcástico ao comparar meu quarto com a Fortaleza da Solidão (aquela do Super-Homem). Lugar onde minhas memórias podem ser descobertas. Lugar onde reina o isolamento, o distanciamento, o frio... Lugar onde me encontro e me expresso... Meu lar.
Perco-me entre os acordes da música que me motivou a escrever isso e sinto medo de terminar só. Rio sozinho ao confirmar minha total incapacidade pra ser um super-homem.
Meu prazer em ficar sozinho de repente se desfoca e degenera. Saudade de quando as alegrias e as frustrações desse sentimento - incoerente com meu momento presente - me vibrava a carne.
A cada dia descubro mais de mim mesmo. Maldito coração mutante que enleia mais sentidos, confunde, perde e acha mais um pedaço no caminho.

22 janeiro 2006

Desejo


"Desejo é memória do futuro."
Adélia Prado


Acho que ando cheio de memórias.

20 janeiro 2006

Tornar Humano

Tenho dificuldade de empreender a árdua construção de me tornar humano. Não basta só nascer. É preciso mais para que a tão cultuada “humanidade” seja garantida. Tudo é conquista e desejo. E à medida que progredimos e nos desenvolvemos como tal, outros, inúmeros e impensados desafios surgem, não pára, não pára, não pára não! Passos certos que ao final das contas desencadeiam milhões de incertezas num ciclo sem fim.
Entretanto, hei de ter muita inteligência pra administrar cada passo, hei de ter serenidade pra não cair no vazio, hei de ter muito entendimento e supremo tato pra encostar lá onde ficam as expectativas e anseios do outros. Aí que canseira, é foda! Mas também é bom, é vida pulsando, a beleza tá nisso, na falta de fechamento do mundo, que abre e sem parar ilumina novas formas.
Eu pago quase tudo pra ver (eu disse “quase” porque nestas questões, volta e meia, ainda me percebo um mão-de-vaca), mesmo que terrível, eu pago pra ver a vida dançar comigo, mesmo que seja num batidão tipo “bate-estaca”. Meu desejo é que a perspectiva cegue, mas que seja perspectiva, e me faça ver melhor, mesmo que com os olhos cheios de lágrimas.

15 janeiro 2006

Continuidades

Nossas continuidades nos fazem eternos/as.
Perpetuam desejos e solidificam certezas.
Sem nenhuma mesmice e com um montão de "surpresices"!

Sabor de Chocolate

Em plena tarde de domingo, voltando de Rio Verde, depois de uma produtiva viagem a trabalho, paramos em um local (não lembro o nome da cidadezinha) para tomar um suco e comer alguma coisa. Na saída, vejo sem acreditar, uma caixa cheinha de Galak. Sim, aquele chocolate branco da Nestlé, que fez tanto sucesso nos anos 80. Pronto! Bastou apenas uma mordida para que no restante da viagem, a paisagem abundantemente verde que nos cercava fosse substituída por imagens do passado com gostos, cheiros e sentimentos da minha infância.
O chocolate da Nestlé tem gosto das brincadeiras com minhas miniaturas pouco articuladas de heróis, todas ganhadas em promoções de refrigerantes, e das raras idas ao supermercado com minha mãe onde eu ficava “namorando” a sessão de brinquedos. Com o nariz pra frente e as mãos cruzadas às costas (– Olhe apenas com os olhos! – orientava minha genitora) chegava pertinho daquelas caixas grandes e coloridas, sonhando um dia ter um Ferrorama (trenzinho movido à pilha da Estrela), mas me contentando com os bichinhos de plástico que vinham junto das promoções de margarina. Todas as limitações daquele período contribuíram para o enriquecimento de minha criatividade que ressaltava o poder de transformação que todos/as temos nesta fase da vida. Uma lata de leite ninho cheia de tampinhas de garrafa era esconderijo secreto para tesouros valiosos; figurinhas de Ping Pong coladas umas nas outras viravam rolos de filme animado; pedacinhos de madeira eram as paredes da sala de justiça que abrigava um super-homem todo azul e uma mulher maravilha toda vermelha em uma brincadeira que eu orgulhosamente chamava de “Família Real Mulher-Maravilha”; cipós viravam corda pra pular; pedras roliças do rio viravam peças pra jogar “Baliza” e por aí vai.
Não sei explicar direito meu saudosismo em relação àquela fase da minha vida. Talvez porque todos os fragmentos de sonhos e as coisas que foram vividas lá atrás formam juntas esse viver adulto que ainda não se encontrou. Hoje, meu desejo é me (re)encantar diante das limitações fazendo delas novas possibilidades que, pela transformação, me tragam de volta aquela paz gostosa com o sabor de chocolate branco.

02 janeiro 2006

Convite

Vem cá. Deita aqui do meu lado, vamos sonhar. Fazer da realidade uma viagem pelas infinitas possibilidades da vida onde diferentes mundos se encontram e se desencontram ao mesmo tempo. Segura firme na minha mão e fecha os olhos, não esquece... Mas eu deixo você me espiar de vez em quando pra ver meu sorriso contido, tá bom? Imagina que todas as ventanias e correrias passaram e agora a vida é calma e nova. Que não existe mais a dualidade que nos angustia... Que a cumplicidade experimentada é o único sentimento que nos aquece, mesmo quando a noite está tão quente. Que podemos andar de mãos dadas pelas ruas caminhando sem direção pra perder a noção de tempo e lugar! Buscar o que não sabemos, encontrar o que queremos e passar a noite em um hotel de ponta de esquina pra rir do casal que grita ao fazer sexo no quarto ao lado. Depois sentir medo da segurança e descobrir novos horizontes...Poder escolher entre atalhos e longas estradas e, assim, descobrir porque queremos tantas coisas quando tão pouco já nos faz felizes.

Olhares

"Nós só vemos aquilo que somos. Ingênuos, pensamos que os olhos são puros, dignos de confiança, que eles realmente vêem as coisas tais como elas são. Puro engano. Os olhos são pintores: eles pintam o mundo de fora com as cores que moram dentro deles."
Rubem Alves


"O essencial é saber ver
Uma aprendizagem de desaprender
Saber ver sem estar a pensar
Saber ver quando se vê
Ver com o pasmo essencial que tem uma criança, ao nascer
Sentir-se amado a cada momento
Para a eterna novidade do mundo..."

Alberto Caeiro

"Se vc me olhar de cima, posso ser o Demônio.
Se vc me olhar de baixo, posso ser Deus.
Se vc me olhar nos olhos, eu sou você!"
Jheny Warner