"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

25 dezembro 2005

Um anel de possibilidades

Meia noite e quinze. Vinte e cinco de dezembro. Dois mil e cinco.
Depois de alguns ensaios que foram assassinados pela minha falta de tempo, por falta de palavras ou por preguiça mesmo, nasceu este texto, que tem nome bonito, com gosto saboroso e sonhador de quem sempre se sente um aprendiz.
A vida é assim: bela em suas nuances. Cheia de contrastes e variáveis que vão preenchendo nossa existência com um colorido especial, que nem desenho feito com a espontaneidade e a fluidez das tintas.
Tristezas pelas partidas vão se alinhando às alegrias pelas chegadas; o novo que enche de surpresa o nosso cotidiano, às vezes tão assoberbado de idas e vindas.
Um ciclo eterno de possibilidades.
Pra mim, neste finalzinho de ano, esse ciclo foi materializado na forma de um anel. Um anel precioso cuja importância já é proporcional ao da famosa trilogia cinematográfica. Nele, consigo enxergar a pureza de quem experimenta pela primeira vez um novo sabor e se “alimenta” com o aroma delicioso do momento ímpar que seduz pela novidade.
Um anel que é presente. Um anel que traz à presença. Jóia rara forjada pelo deseJo do novo e lapidada pela coragem de caminhar sobre um CAMPO MINADO sem medo. Sinal do que me deixa SORRIDENTE todas as vezes que vejo escrito “nº confidencial” na tela do celular.
Que é simples cOmo o calor de um dia ensolaRado cuja luz vai preenchendo devaGarzinho todas as frEstas escuras. Que vai arrumando tudo. No seu tempo. Do jeito certo!

18 dezembro 2005

Tempo de Querer

Final de ano é assim. Tempo de querer!
Querer todas as cores, sabores e odores. Querer curtir, sumir... beber, ter prazer. Querer planejar tudo o que não fiz. Querer festa pra cair na gandaia. Chutar tudo pro alto e recomeçar como se fosse a primeira vez. Querer dar um tempo, ter tempo de voltar a ser eu outra vez. Querer a sensação de segurar a máquina do tempo nas mãos pra perder o controle e desligar da vida por cinco ou seis minutos... e depois voltar, renascer como uma pequena pimenta ardente, pronto pra se excitar, pra ficar com a visão turva, o coração em fogo e a razão insatisfeita. E fazer disso apenas o (re)começo!

12 dezembro 2005

Home Alone

Adoro ficar sozinho em casa pra colocar o som no último volume e dançar, só de cueca e camiseta, as músicas da década passada;
Pra poder dormir no sofá com a televisão ligada sem que ninguém me mande pra cama;
Pra deixar a cama desarrumada, almoçar às quatro da tarde e jantar uma pizza que eu pedi depois da meia-noite;
Pra transitar por toda a casa só de relógio enquanto o telefone toca insistentemente sem que eu atenda;

Pra falar ao telefone sem ter que usar meias palavras;
Pra beber água gelada no gargalo e ir acumulando garrafas vazias ao lado da geladeira;
Adoro ficar sozinho em casa pra ver pornografia na internet sem precisar fechar a porta;

Pra comer chocolate sem ter que dividir com ninguém... Hibernar sobre o sofá e me entupir de “supérfluos perecíveis” enquanto assisto a um montão de vídeos antigos;
Adoro ficar sozinho...
Em casa.
Somente!

08 dezembro 2005

3x4

Lembro-me bem do dia que estas fotos foram tiradas. Minha irmã e eu, depois de passarmos quase toda a tarde do sábado dormindo, acordamos com meu pai dizendo que iríamos tirar foto. Em casa nunca fomos de registrar momentos nossos e a situação financeira pouco favorável não nos permitia o luxo de ter uma máquina fotográfica. Por isso aquela tarde teve um sabor todo especial. Minha irmã, quatro anos mais nova que eu, não entendeu muito bem a proposta, mas eu bem queria um retrato só meu pra mostrar orgulhoso o “projeto de cabelo grande” que meu pai insistentemente tentava convencer minha mãe pra deixar crescer.
Hoje me surpreendo em perceber como as lembranças daquela tarde afloraram com tanta força à medida que vou construindo esse texto. A impressão é de que se eu fechar os olhos vou poder sentir as mãos macias de minha mãe arrumando pacientemente a gola da minha camiseta de festa ou o calor gostoso da mão de meu pai nos conduzindo pela calçada até o retratista.
Minha irmã, com seu vestido rosa cheio de babados e bordados, não gostou muito, fez cara de choro e tudo mais. Eu, apesar da cara séria (isso vem de longa data), estava curtindo. A curtição não era só pelo retrato em si, mas por toda a situação. Depois das fotos, já voltando pra casa, passamos no armazém do seu Graciano e ganhamos um sorvete de Maria-mole (daqueles com brinquedinho de plástico no topo). Em casa, minha mãe nos esperava com a janta pronta. Lembro-me dela reclamar do cabelo da minha irmã em desalinho e em seguida, ao ouvir meu pai contar da ameaça do choro, se compadecer, pegando a caçula no colo.
As fotos 3x4 ficaram prontas na semana seguinte, mas já não me lembro de detalhes ocorridos após aquela tarde de sábado. Ao olhá-las novamente, agora no finalzinho de 2005, pensei em uma alegoria que vale a pena registrar: hoje somos três (minha mãe, minha irmã e eu), mas constituídos originalmente como quatro. A ausência de meu pai re-significa sua presença no jeito como cada um de nós entende a vida.

Somos três, mas valemos por quatro.

Caos

Estou no meio do caos instaurado por mim em meu quarto: ráfia debaixo do guarda-roupa, caixa de fotos perto da porta (sem nenhuma foto dentro porque estão todas espalhadas pela mesa e adjacências), fio dental em cima do computador, cadeira-cabide com uma pilha de roupas usadas penduradas, papéis cortados pela cama, pincéis no banheiro, livros aos montes pelo chão, lixeira transbordando, gavetas que insistem em não fechar em função do entupimento provocado pelas “tralhas” que a preenchem. Enfim, uma zona intransitável. Pra completar a cena estou eu saboreando uma deliciosa nectarina (fruto da mistura de pêssego com ameixa vermelha), com meu coração sereno. O som toca Rufus Wainwright e embala essa minha indolência típica dos tempos de calmaria. Pensei em organizar esse caos, mas desisti ao adentrar na bagunça. Ela não me atinge como antes, pelo contrário... relaxa. Decido aproveitar esse momento incomum. Passo o pé jogando toda a papelada que está sobre minha cama no chão e, sem tirar a colcha, deito de roupa e tudo. Entendo que dentro de mim tudo está organizado, compartimentado. Hoje, pelo menos, o caos é apenas externo. Ele não me contagia. Fecho os olhos e faço a pergunta mentalmente: como estou? Feliz, eu diria. Levanto de supetão, troco o cd e junto com a Zélia Duncan começo a cantarolar: “...e então a moral da história vai estar sempre na glória de fazermos o que nos satisfaz...”