"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

27 novembro 2005

Sem resignação

Meia-noite e cinqüenta e sete. Cansado de pintar, começo a escrever e depois a pensar. Nesta ordem, só o pensamento prevalece revelando minha desordem interna. Penso em meu esforço para instaurar em mim uma forma simplista de ver as dificuldades. Mas não ligo.
Aliás, neste dias não tenho me importado com as noites insones, o sono atrasado, a falta de dinheiro ou a curiosidade que acende as muitas coisas importantes que deixei de fazer por falta de tempo. Penso em mim e por alguma razão desconhecida, a dobra que vinca meu rosto pela manhã é a primeira imagem que aparece. Tem dias que não queria ser eu, mas aí penso em outras possibilidades e são estas mesmas possibilidades que, finalmente, me embriagam de mim mesmo.
A melancolia angustiante que tem me acompanhado nestes dias termina aqui. Despeço-me dela para seguir em frente. A possibilidade de encontrá-la novamente é quase uma certeza. Mas também não ligo. O domingo vem chegando com sabor de libertação, de vitória conquistada, de um futuro pouco menos solitário. Sei que ainda não posso entrar, mas vou continuar parado à porta, com velada determinação e sem resignação. Por hora, isso é o bastante.

Fazedor de Girassóis

Queria ser um fazedor de girassóis para, na mistura do laranja com o amarelo, imprimir o desejo de liberdade.
Queria ser um fazedor de girassóis para, mesmo sem esboço, disciplinar referências e ordenar meu próprio caos.
Queria ser um fazedor de girassóis para abrir o sol com o traço.
Queria ser um fazedor de girassóis para fazer com que os sóis se voltassem para mim.
Queria ter um fazedor de girassóis para que a sós pudesse lembrar o que não se diz.

16 novembro 2005

Doce Novembro

Em 1999, assisti Doce Novembro. Um filme que mostra a história de Sarah (Charlize Theron, linda!) que pede para que o publicitário Nelson (Keanu Reeves) para deixar que ela seja seu “novembro”. Ele, capitalista ao extremo e tomado pelo stress provocado pela correria do trabalho, reluta, mas acaba deixando se levar pela simplicidade e beleza de uma vida sem amanhãs. De repente, no filme, Nelson se vê apaixonado e quer casar-se com Sarah. Mas ela tem câncer e morre. Ou melhor: prefere morrer para viver bela e eterna na memória de Nelson.
A memória desse filme na metade do mês de novembro de 2005 me faz imaginar que recriar nossa razão de ser neste mundo, e enxergar a beleza da vida nas coisas simples do cotidiano são desejos que devem nortear nossos horizontes. A salvação não é monopólio das grandes religiões, nem das doutrinas criadas pelos homens, mas está oculta nos pequenos milagres que nos salvam de estarmos separados por números do corpo e da vida.
Hoje, dia 17 de novembro, eu queria encontrar uma Sarah e não precisar mais festejar todo o meu ano em um único dia em meio a fogos artificiais. Uma Sarah para me ensinar a fazer de todos os dias do ano um eterno novembro, doce como chocolate e imprevisível como os bichos de algodão no céu.

PS.: Recado para quem ainda não viu o filme: não fique com raiva por eu ter contado o final, pois já se passaram 6 anos desde seu lançamento. Já passou da hora de você assistir!

All Star

O que tenho agora na minha frente é um pé do meu All Star que está sem cadarço. Ele perdeu aquela ponta que ajuda a passar o cadarço pelos buracos do tênis. Tem também a minha caneca branca que acabou de servir o quinto gole de suco de uva (daqueles que parecem vinho) e que só estou tomando pra ver o colorido meio escarlate do líquido, pois do gosto não tenho notícia.
Pela persiana, os últimos raios do sol levaram junto minha ilusão de um dia perfeito.

Promessas não cumpridas se puseram com uma rapidez inesperada no horizonte cheio de prédios da minha janela. Claro que eram promessas pueris e toscas. Se fosse diferente, teria a certeza de que, pela manhã, reapareceriam novinhas em folha: Posturas, mestrado, caminhadas, conversas definitivas, portfólios, fantasmas da ópera, profissionalismo, exames de rotina, desejos à flor da pele, viagens, quebra de barreiras internas...Ilusão achar que mudanças são fáceis. Eu, pelo menos, nunca tenho coragem para realizá-las. Só discurso. Um saco não prever o previsível!
Ninguém escolhe morrer e abrir mão de si mesmo. Ninguém escolhe mudar, pois mudar é trocar-se pelo previsível. Por algo que você não é. As mudanças acontecem sim, no entanto, acontecem sempre antes que a desejemos ou provoquemos. Há dez anos atrás, pra ter a coragem de usar um All Star eu precisaria mudar muita coisa.
Olhando para meu All Star, agora já de cadarço novo, me lembro de uma música do Nando Reis que coloco pra tocar: “estranho é gostar tanto do seu all star azul”.
Tomo o último gole do suco na caneca branca. Agora já posso sentir o gosto da uva.

15 novembro 2005

Café, pães de queijo e bobagens

A Naira eu conheci na segunda fase do vestibular da UFG, no final de 1999. Me lembro direitinho dela sentada com aquela montanha de chocolates em cima da cadeira antes de fazer a prova. Ela, com certeza não deve ter me notado, mas sua figura não me passou despercebida, principalmente porque o barulho que fazia ao desembrulhar todos aqueles supérfluos perecíveis foi inesquecível.
Depois nos encontramos na faculdade. Como era chata e “metida” aquela criatura que ia pra aula vestida como se estivesse indo pra uma festa de gala. Sua característica marcante era soltar pérolas verbais em todas as aulas e fazer pose de mocinha virginal e puritana. Uma verdadeira “patricinha” com tudo o que este rótulo pode representar. Apenas com uma diferença: Sabia escrever como ninguém e lia sempre com impostação na voz, pronunciando as palavras como elas devem ser pronunciadas e com propriedade de quem ama o universo das letras!

Apesar desta imagem puritana, estava sempre envolvida com as performances artísticas mais loucas que aconteciam na faculdade de Artes Visuais. Com um pé no teatro, ela literalmente sapateou, encenou, pintou e bordou com os sete pecados capitais, a escola barroca holandesa e com um vestido de noiva dentro de um banheiro escuro interditado e recheado de loucuras (só pra citar algumas peripécias...).
Nos dois primeiros anos do curso nós mal nos falávamos. Eu, cdf de carteirinha, nem pensava em “perder meu precioso tempo” com aquelas viagens regadas à muito imaginação. Pertencíamos a tribos diferentes que se limitavam a uma comunicação brevíssima com sinais de fumaça. A aproximação só veio na segunda metade do terceiro ano e, pra falar a verdade, eu nem sei como foi que aconteceu (Naira, se você ainda lembra, me diga). Só sei que a imagem que tínhamos um do outro foi se desfazendo aos poucos e no lugar dela foi surgindo outra Naira surpreendente - na realidade acho que estava lá o tempo todo, e eu, com meu velho e bom escudo invisível, não conseguia enxergar.
No final das contas, a convivência ficou muito prazerosa porque fomos nos descobrindo. Hoje, quase dois anos depois da formatura, Naira é uma das poucas amigas que permaneceu. Com ela compartilho as madrugadas (tem gente que vai pensar bobagem! Que bom! Rsssssssss!), meus segredos, minha vida. Com ela tenho aprendido a ser eu mesmo, me surpreendendo sempre com sua capacidade de enxergar a vida de forma bastante peculiar, sem deixar que seja chata ou monótona, mas regada de muita criatividade e belos textos (visitem o blog da menina e confirmem! O endereço está no final deste texto). Foi ela quem me incentivou a criar este blog e está sempre tecendo elogios maiores do que mereço. Foi ela quem melhor me definiu em um depoimento do orkut e é pra ela que dedico este texto. É pra ser um obrigado especial que de obrigação não tem nada porque foi brotando com muita espontaneidade.

É assim que tem que ser!
Beijo com o calor do sol da manhã de feriado!

Para acessar o blog, que só tem bobagem no nome, copie e cole o endereço no seu navegador e deixe seu espírito de navegante adentrar neste “universo nairístico”: http://www.cafepaesdequeijoebobagens.blogspot.com//

Abraço de Solidão

Wolney diz:
Bom, eu agora preciso ir
Tom diz:
ENTÃO VAMOS JUNTOS
Wolney diz:
Depois a gente filosofa mais. Pode ser?
Tom diz:
SIM, VAI TRABALHAR! EU TE LIGO.
Wolney diz:
Espero
Tom diz:
E A GENTE SE VÊ NO FIM DE SEMANA.
Wolney diz:
Tá certo. Abraço forte de solidão pra você!
Tom diz:
DA UM BEIJO NA ZANZA E NA SUA MÃE
Wolney diz:
Dou sim.
Tom diz:
GOSTO DO RISCO QUE VC CORREU!
Wolney diz:
Risco? Onde? Quando? Explica aí esse negócio de risco...
Tom diz:
AO DESEJAR UM ABRAÇO FORTE DE SOLIDÃO!
Tom diz:
FOI LEGAL! EU GOSTEI DA COLOCAÇÃO.
Wolney diz:
Que bom!
Tom diz:
OUTRO TALVEZ NÃO ENTENDERIA
Wolney diz:
Também acho que não.
Tom diz:
FOI MUITO ÍNTIMO
Wolney diz:
Sim. Foi!
Tom diz:
POR ISSO GOSTEI TANTO
Wolney diz:
Fico feliz que tenha gostado. Tenho tentado não esconder o que sinto. Principalmente com pessoas que me deixam à
vontade. E você é uma delas.
Tom diz:
A GENTE QUE VIVE SÓ, CULTIVA MUITO A INTIMIDADE.
Wolney diz:
Vc tem me ajudado muito nisso. Obrigado!
Tom diz:
E VC TAMBÉM TEM ME AJUDADO MUITO... A SER GENTE! ESSE NEGÓCIO É MUITO

DIFÍCIL.
Wolney diz:
Perfeito! Nesta troca a gente vai longe...
Wolney diz:
...ou será que já fomos?
Tom diz:
COM MUITA INTIMIDADE...
Tom diz:
ACHO QUE AINDA NÃO FOMOS, MAS ESTAMOS INDO, E CHEGAREMOS LÁ.
Wolney diz:
Que nada!
Tom diz:
BEM LONGE........
Wolney diz:
O melhor é imaginar que a gente vai longe, mas não chega nunca...
Wolney diz:
porque o bom da coisa é ir caminhando juntos.
Tom diz:
É BEM VERDADE ISSO TAMBÉM.
Tom diz:
ISSO SIM É FILOSOFIA!
Wolney diz:
Isso sim é teologia!
Tom diz:
ESTOU CONFUSO...
Wolney diz:
Confunde mesmo, mas não é pra entender. É só pra sentir.
Tom diz:
É ISSO QUE A TEOLOGIA FAZ, NOS FAZ SENTIR...
Wolney diz:
Posso publicar isso?
Tom diz:
ISSO O QUÊ?
Wolney diz:
essa conversa?
Tom diz:
TODA? PODE SIM.
Wolney diz:
Toda não, senão vai ficar muito longa. Só da parte do "abraço de solidão" até aqui.
Tom diz:
BLZ
Wolney diz:
então tá. Confere amanhã no blog.
Tom diz:
CUIDADO, ÁS VEZES ME APRESENTO MUITO IDIOTA QUANDO ESCREVO.
Wolney diz:
Que nada. Isso é "neura" sua. Tem sugestão pro título?
Tom diz:
CUIDA DE MIM AÍ...
Tom diz:
...COMO CUIDA AQUI
Wolney diz:
Pode deixar. Serei cuidadoso como sempre. Agora me responde: que tal se o título for
“ABRAÇO DE SOLIDÃO”?
Tom diz:
ÓTIMO!
Wolney diz:
Então tá feito!
Wolney diz:
E ninguém desfaz!
Tom diz:
OK
Wolney diz:
tchau!
Tom diz:
UM BEIJO...
Wolney diz:
Outro!

14 novembro 2005

Caranguejos Internos

A tristeza é sempre o caminho mais fácil porque envolve resignação. Nos últimos dias, esta tem sido minha estrada. Ainda não sei a razão pela qual escolhi essa trilha. Talvez ela tenha me escolhido como seu transeunte preferido. Sei lá. Escolhas envolvem sempre outras possibilidades e do ponto que estou não consigo visualizá-las.
Meus “caranguejos internos” estão cada vez mais embaraçados. Não consigo explicá-los. Só sentí-los. Antigos caranguejos insistem em voltar.
Preciso expulsá-los, mas não consigo.
Não agora.
Estou sem forças.
Definhando...

Vô Jorge

Quero ser eterno como vô Jorge. Mesmo tendo partido há 32 anos, ainda hoje a simples menção de seu nome faz as pessoas que o conheceram abrirem um sorriso de acolhida ao enxergarem em mim, seu neto, uma extensão do homem bom e justo que ele foi.
Não o conheci pessoalmente, mas minha mãe se encarrega de trazer sua memória sempre presente. Com encantamento e ternura, ela conta como ele foi um homem que, apesar de simples e sem instrução, estava muito à frente de seu tempo: Pai amoroso, esposo fiel, comerciante justo, homem do campo e regente das folias do Divino e de Reis por aquelas bandas, ele ficou conhecido pela benignidade e dedicação com as quais ele conduzia a vida no interior. “Seu Nenzinho” era como todos/as o chamavam. Sua regência nas folias locais lhe deu visibilidade e respeito que ainda hoje são lembrados.
Há um ano atrás, mexendo em guardados antigos na casa que ele mesmo construiu em Lagolândia, encontrei a bandeira do Divino de uma das folias que ele regia. Gasta e empoeirada pela ação do tempo, ela ainda conserva uma beleza e significado que pra mim transcende sua materialidade. Virou sacramento! Sinal vivo da presença de vô Jorge na minha história. Sinal concreto de uma eternidade bonita que eu anseio tocar.

Voltas

Voltar pra casa sempre me fortaleceu. Foi assim desde o começo. Mesmo assim, sempre me esqueço. A idéia hoje é registrá-las, aos poucos, uma por uma. Física ou metaforicamente descortiná-las para que me ajudem neste caminho que venho tentado trilhar diariamente.

Primeira volta
Concluído a 8ª e última série na minha cidadezinha - aquela de 300 habitantes e rio – fui estudar em Goianésia – uma metrópole pra mim, na época. Estranho como as escalas mudam à medida que envelhecemos... (qualquer dia escrevo mais sobre isso). A idéia era alçar vôo. Aquela chance de sair de casa poderia ser o farfalhar das asas que eu precisava pra voar sem medo sobre outros horizontes. Em meus planos, dali partiria pra bem longe. Queria me distanciar daquela cidadezinha que já não dava conta de meus sonhos. Mal sabia eu que meu sonhado vôo não passaria de um de breve salto quando, por ocasião da morte do meu pai, tive que retornar pra casa. Alusão torta à parábola do Filho Pródigo que volta, mas que aqui, não encontra mais a figura paterna e sim o encanto do reencontro consigo mesmo.

Segunda volta
Já morando em Goiânia e fascinado com a faculdade de Artes Visuais, que havia iniciado há pouco, paradoxalmente parei de desenhar. É. Se antes o desenho era quase uma extensão do ritmo que meu coração desencadeava para minha vida, agora era puramente um meio pra conseguir a nota certa nas aulas de desenho artístico. Esquecida, minha grande paixão de infância, foi trocada pelo medo de parecer amador ou infantilóide com minhas garatujas feitas com lápis de cor, canetas bic ou lápis nº 2. Ingenuamente, concluí que o computador me permitiria arranjos visuais bem mais interessantes. Ledo engano! Mais uma vez foi preciso “voltar pra casa” e reencontrar o prazer puro e simples que o desenho, mesmo ingênuo e simplista, me trazia.

Em meio a tantas voltas (estas duas foram só o início de uma série) sempre tive que confrontar medos internos. No entanto, mesmo carregando todas as implicâncias que um sentimento assim nos traz, esse confronto ajudou a moldar quem sou. Fez-me voltar à minha essência por depuração. Lapidação de um diamante bruto ainda sem o brilho certo.

10 novembro 2005

Dois em um

Dual – do latim duale. 1. Composto de duas partes. 2. Relativo a dois.

Gêmeos – 1. a terceira constelação do zodíaco, situada no hemisfério norte, a 7h de ascensão reta e 2º de declinação norte. 2. O terceiro signo do zodíaco, relativo aos que nascem entre 21 de maio e 20 de junho.

Volátil por natureza
Santo e Pecador
Doce e azedo
Puritano e pervertido
Falso e verdadeiro
Criança e adulto
Positivo e negativo
Calmo e nervoso
Sério e brincalhão
Bobo e perspicaz...
Camaleão que sofre de excesso de imaginação.

Caleidoscópico da monótona realidade

Não sei. Só sinto. Não dói, mas angustia.

05 novembro 2005

Cumplicidade

Quatro e dez da madrugada. Pela janela, percebo a noite mais fria do que a anterior. A persiana deixa entrar fachos de luzes que inundam meu quarto com uma luz pálida e serena. Deitado na penumbra eu olho pro teto novamente. No som, ouço a voz de Norah Jones entoar melancolicamente “I’m just sitting here waiting for you to come on home and turn me on”.
Alguns fatos, quando acontecem inesperadamente, sem aviso, deixam a gente com vontade de, num único momento, eternizar o sentimento de felicidade e com ele perpetuar sabores, cheiros, formas e temperaturas... Estou assim: cheio de lembranças recentes que fazem com que emoções conflitantes rondem minha mente, arrepios de prazer percorram meu corpo e sentimentos ternos aqueçam meu coração.
Dou um giro de 180 graus na cama e faço meus pés tocarem a cabeceira enquanto meus olhos se voltam para o espaço vazio perto da porta. Cheiro minha mão na tentativa de sentir mais uma vez o perfume doce do óleo de algodão, bálsamo que agora unge minhas fantasias mais secretas.
Sorrio baixinho com vontade de novamente velar pelo sono alheio, sentindo desejo de pintar no sonho, nuances dessa felicidade que, devagarzinho vai inundando meu corpo. Entendo, ali, deitado de ponta cabeça, que a cumplicidade partilhada, quando calma, é um esconderijo para medos e conflitos internos. Complicado? Não. Simples assim, como tudo deve ser.