"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

30 outubro 2005

Sinto, logo existo!

Eu sou assim: Quando ouço ou vejo alguma coisa que me toca, eu guardo. “Sinto, logo existo” foi uma destas frases que ouvi e que me deixou tão inquieto a ponto de me motivar a aplicar isso em uma camiseta. Logo eu, um cara que leva a vida sempre no compasso da razão. Duvida? Eu não! Embora a emoção esteja sempre pulsante dentro de mim, eu sempre consigo arranjar um jeito de sufocá-la pra deixar que esse maldito “logos” fale mais alto. Será que essa dialética dramática entre razão e emoção será sempre o ponto principal de meus conflitos internos?
Já respondo - para aqueles/as que me enviarem comentários dizendo que o equilíbrio entre estas duas forças é a forma mais adequada de lidar com elas - que ser um cara equilibrado é muito chato!
Quero a instabilidade, sentir o frio na barriga à beira de um precipício e o tremor da excitação minutos antes do gozo.
Quero a coragem para me lançar sem medo. Não pensar, só sentir. Me descobrir e ser descoberto. Pulsar.

29 outubro 2005

Meu pai, pinóquio e eu

A data exata eu não lembro, mas sei que era domingo, dia de jogo. Como todos os outros, aquele domingo da minha infância se pronunciava com ares de um dia como outro qualquer. Por isso, ao ver o Pinóquio desenhado na cartolina rosada que meu pai tinha feito pra mim, tudo ficou diferente. Era um desenho sem cor, só com lápis preto, mas era “grandão” do jeito que eu queria. A história do boneco de madeira que queria virar menino era minha preferida e meu pai havia prometido um desenho pra eu colar na parede perto da minha cama.
Além de numerosa, a família do meu pai sempre foi cheia de talentos. Tenho tia que canta, tia que pinta, tia que toca flauta e por aí vai... Com meu pai, o mais velho de 10 irmãos, não foi diferente. A começar pela caligrafia belíssima, sinal de sua destreza com a caneta e intimidade com o lápis. Porém, o desenho nunca foi sua paixão. Desenhava só quando precisava. Nunca por prazer, sempre por outros motivos. A paixão ele deixou para a viola que o acompanhou por toda vida.
No entanto, naquela manhã, antes de sair para o jogo, ele pacientemente fez o Pinóquio com a precisão de um Gepeto. Tinha ficado perfeito. Do jeito que eu havia visto nos gibis de Walt Disney.
Já se passaram 14 anos sem meu pai. Nesse tempo de ausência venho tentado delinear quais as imagens da nossa relação que trago dentro de mim e o Pinóquio desenhado na cartolina rosa sempre aparece. Acho que ele nunca soube porque eu também nunca disse, mas naquela manhã eu confirmei o que queria fazer quando crescesse: iria desenhar. Não como o Walt Disney, mas como meu pai.

PS – A imagem do Pinóquio que ilustra este texto, foi feita por mim em 1992, um ano após a morte do meu pai. Ela estava esquecida na mesma pasta de desenhos que minha mãe encontrou pra mim.

Mulher Maravilha

Nesta semana fiquei ensandecido quando não conseguia encontrar uma pasta antiga com alguns dos meus primeiros desenhos. Desenhos de quando eu ainda não criava, só copiava. Paisagens, heróis, cenas dos desenhos de Walt Disney. Uma mistureba só. Revirei todas as minhas coisas e já estava no limite do desespero quando minha mãe pacientemente me disse onde a pasta estava guardada. Ao mostrar a pasta a um amigo, minha mãe também recordou que os primeiros desenhos não tinham sido aqueles e sim as mulheres-maravilha que eu desenhava com caneta bic nas revistas dela.
Como eu posso ter me esquecido delas? Na época, passava na tv aquele seriado com a Lynda Carter que eu adorava (quem foi criança no início da década de 80 deve lembrar).
Não podia ver um espaço branco nas revistas que eu sapecava um desenho da Mulher-maravilha. Musas inspiradoras não são privilégios apenas dos grandes artistas, pois eu também tive a minha. Pra deixar o mundo cheio destas "maravilhas" eu aproveitava tudo, inclusive fotos de modelos. Para melhorá-las eu desenhava logo na testa de cada uma, a tiara com a estrela que minha heroína trazia entre os cabelos negros. Minha mãe, ocasionalmente reclamava por eu "rabiscar" as revistas Cláudia ou Nova que ela guardava, porém nunca me proibiu de fazer essas "interferências visuais". Hoje, quando notei que esses meus desenhos ainda estavam em sua memória me bateu um sentimento gostoso ao concluir que, ao contrário de mim, ela tem aqueles meus primeiros traços guardados no coração.
A heroína dos quadrinhos e do seriado ficou pra trás, mas a mulher maravilhosa que sempre acreditou e me apoiou de corpo e a alma, está bem presente e vive aqui, comigo e com minha irmã, na Sala de Justiça.

15 outubro 2005

O Menino do Elevador

Alguém conhece situação mais constrangedora do que os minutos que passamos dentro de um elevador com mais 3 ou 4 pessoas desconhecidas? Eu sempre achei isso uma situação paradoxal: tão próximos fisicamente e tão distantes nas relações. Os olhares raramente se cruzam e estão sempre procurando encontrar um ponto para se fixar. Na maioria das vezes esses pontos são o teto, o piso, o painel com os números luminosos e, para os/as mais vaidosos/as, o espelho. Ali reina um silêncio sepulcral e para piorar, temos ainda o que eu chamo de momento Big Brother, pois somos vigiados por uma câmera que, além de indiscreta distorce nossa imagem de forma engraçada.
Eu moro no 10º andar de um edifício que possui cerca de 100 apartamentos e são raras as vezes que tenho o elevador só pra mim. Na maior parte do tempo sempre há alguma companhia silenciosa e distante.
Bom, mas esse preâmbulo todo é pra contar um fato que aconteceu hoje pela manhã enquanto eu descia junto com mais quatro adultos para a portaria. Tudo transcorria no mais perfeito e silencioso constrangimento até que, no 7º andar, entra um menino puxado pela mãe. Ele não tinha mais do que 4 ou 5 anos e trazia um papel todo rabiscado na mão. Quando a porta do elevador se fechou, o menino começou a olhar cada um dos passageiros com olhar curioso e sem nenhuma cerimônia foi logo mostrando o desenho pra todo mundo. De repente, como num passe de mágica, aquela criança interagia com todos de forma tão espontânea que os olhares, antes perdidos em algum ponto da caixa apertada, agora se cruzavam, ao passo que cada um/a tecia um elogio sobre os rabiscos coloridos que o menino fez circular. A mãe toda orgulhosa pela popularidade do filho pediu que ele agradecesse. Antes que ele pudesse abrir a boca, o elevador parou. A porta se abriu e a realidade foi invadindo aquele grupo que, agora já não demonstrava mais interesse pela criança e muito menos pelo desenho sem forma definida que ele trazia. Eu diminuí o passo e fiquei observando o grupo que, tomado pela pressa costumeira, não percebeu que o encanto criado por aquela criança no elevador havia sido quebrado com muita facilidade pela realidade de cada uma daquelas seis pessoas. A criança, ao contrário dos outros, saiu do elevador com a mesma alegria e entusiasmo de antes. Com um último olhar eu pude ver que o menino orgulhosamente mostrava o desenho para o porteiro sisudo, que mal abriu a boca para responder o “bom dia” que eu havia lhe dirigido. Ele agora sorria como eu nunca havia visto! Fora enfeitiçado pelo encanto que aquela criança trazia em torno de si.
Como se estivesse murmurando uma pequena prece, eu repeti pra mim mesmo: “Meu Deus, me dá cinco anos! Me cura de ser grande!”.
Com estes versos da Adélia Prado na cabeça eu caminhei até o ponto de ônibus.

14 outubro 2005

Dona Prizulina

Pra quem ainda não sabe, quero avisar que meu começo foi em Lagolândia. Uma cidadezinha destas com Igreja com praça na frente, casas em volta da praça e rio. Foi lá que cresci e de lá trago no coração várias nuances, pessoas e histórias que, vira e mexe, afloram dentro de mim. Ontem e hoje, por exemplo, em conversas distintas, com dois amigos, me veio a imagem de Dona Prizulina.
Dona Prizulina era idosa desde sempre. Magra e com alguma dificuldade para andar, ela gostava mesmo era de ficar de cócoras no “rabo” da fornalha lá de casa. Com sua gargalhada gostosa, ela fazia ressoar por toda a casa o prazer e a delícia de ouvir as rimas das histórias dos livrinhos de cordel que eu, ainda menino, lia pra ela. Ela mesma me incumbia de tão importante tarefa, que eu cumpria com um certo orgulho porque além dela, minha mãe e minha vó se juntavam à minha seleta platéia.
Lembro-me com muita clareza de histórias de malandros e capetas, de mascates apaixonados por moças virgens e outras tantas virações. Lembro também que assim que terminava de ler eu ia logo desenhar aqueles personagens e suas peripécias que povoavam minha imaginação em versos fresquinhos. Na maioria das vezes, os traços eram simples garatujas que riscava em folhas de papel com pauta.
Ao recordar Dona Prizulina, entendo ainda melhor de onde me vem, a saudade e a ternura por estes anos. Fiquei adulto com a nostalgia dos sentidos novos experimentados naquela época e naquele mundo. Hoje, já não basta esforço abstrato para recriar impressões passadas, nem palavras exprimem o sentimento de diminuição que acompanha a impossibilidade do retorno. Só me restam as imagens para que as lembranças pessoais sejam invadidas por outras memórias que roubam das primeiras o sentido, a transparência e a verdade.

12 outubro 2005

Horizontes

Começou assim:
- Quando é que você vai me dar aula de desenho?
- Aula? Eu não sou professor. Além do mais não saberia por onde começar...
Mas a história começou bem! As aulas (será que posso chamar assim?) acontecem aos sábados e eu, fazendo “pose” de professor, acabo aprendendo mais do que ensino. É estimulante poder acompanhar, mesmo que indiretamente, alguém que usa o desenho para se encontrar pouco a pouco. Cada traço ou pincelada, além de dar forma às imagens, servem também para esmiuçar dilemas internos, afirmar valores e com isso se fortalecer. Tem sido gostosa a experiência de descoberta que vivencio junto ao meu “aluno” porque isso tem ampliado meu amor pelo que faço. Os horizontes, que já eram vastos, estão se mostrando ainda mais “arreganhados”. Em meio a rascunhos, traços e borrões há espaço para conversas, filosofia e música. E, neste pouco tempo, tenho confirmado que a beleza está na autenticidade, está em saber que o único esboço válido é o da felicidade. O resto a gente apaga (e neste caso, podemos usar a borracha).


PS.: Os traços firmes e sem costuras do desenho acima são do aprendiz que tanto tem me ensinado.

10 outubro 2005

Colorido por fora e cinza por dentro

"Apagaram tudo. Pintaram tudo de cinza..." (Marisa Monte)
Hoje meu dia foi assim, apagado, cinza. Acordei sem conseguir tirar da boca o gosto pegajoso e desagradável dos dentes por escovar. Passei o dia assim: indolente, com a pele gordurosa, a barba por fazer, o cabelo duro, o saco coçando e cheio! Cheio de um montão de coisas e pessoas que me rodeiam. Fico tentando ser o bom moço sempre e vou me consumindo em situações que não me dão tesão. Pareço um equilibrista daqueles que estão com as mãos e os pés cheios de pratos, pendurado num fio oscilante e tentando não deixar nada cair... Um covarde disfarçado de bom moço que diz sim a tudo e a todos. Sempre eficiente, nunca displicente. Por que não sei falar NÃO? Que PORRA de personalidade é essa que vai me consumindo aos poucos?
Pra terminar esse dia cinza, de uma semana que se anuncia também sem cor, um amigo me disse, por volta da meia noite em uma conversa no msn, que “eu sempre quero ser muito justo e correto com todos/as e acabo sendo injusto e incorreto comigo mesmo”. (Ta aí, Wellington. É bem isso! Você resumiu em uma frase toda a angustia que invade minha alma).
Cinza por dentro e por fora. É assim que vou dormir hoje.

09 outubro 2005

Tempo e intolerância

Nunca gostei muito do tempo. Mas percebo o quanto ele me fez bem. Idéias, conceitos e convicções foram se transformando e hoje vejo o quanto esta transformação foi me tornando um cara mais aberto. Falo isso porque estou criando uma série de ilustrações dos orixás e me lembrei que há 10 anos atrás eu sequer teria a coragem de ler sobre os Deuses africanos. Sabe quando se submete uma cultura tão rica a uma visão reduzida do assunto tendo como parâmetros uma concepção mesquinha da vida? de Deus?
Assim era eu. Rapaz centrado, obediente e temente, mas demente... um crente que virou descrente. Hoje, ao criar a Yemanjá que abre esta mensagem, procuro a redenção que só o tempo (eterno companheiro) pode me dar. Que a dança da senhora das águas, mãe dos orixás, nos embale pelo movimento das ondas da gratuidade deixando essa realidade cada vez mais azul.

08 outubro 2005

Um salto no passado

Hoje cedo na saída para o trabalho, dei uma passada na banca de revista que tem aqui na esquina de casa como faço quase todos os dias (não resisto a uma banca de revistas). E foi uma surpresa bem legal quando vi um álbum de figurinhas “Amar é” (Lembram?). Foi uma viagem no tempo e acabei não resistindo e comprando um pacotinho de figurinhas só pra matar um pouco da saudade permanente que tenho da minha infância. Impressionante como isso deixou meu dia mais interessante!
Viajei no tempo legal. Foi só abrir o saquinho de figurinhas e me deparar com aquele casalzinho simpático que figura as inúmeras frases clássicas do “Amar é”. Que, diga-se de passagem, permanecem com a mesma estética de 20 anos atrás. Genial!!!
Aliás, essa onda “anos 80” que agora (re)passa por nós tá me fazendo um bem danado. Ô década boa pra quem foi criança!
Aos saudosistas e moleques como eu, deixo uma frase de uma das 3 figurinhas que comprei:
“AMAR É... dar um grande salto juntos”.

Se for um pulo ao passado então, a aventura fica melhor ainda!
Abraço a todos/as!

Em tempo: O Álbum custa R$ 3,50 e cada pacotinho com 3 figurinhas só R$ 0,50.

Iguais

A Vanildes, uma amiga e colega de trabalho lá da CAJU (Casa da Juventude), voltou da África esta semana e trouxe pra mim um cartão com uma ilustração que ela disse ter minha cara porque se parece com alguns desenhos que faço e porque o estilo é bem próximo do meu.
O cartão é confeccionado por um africano. Ele ganha a vida produzindo imagens como esta que, além de bonita, prima pelo acabamento e delicadeza.
Esse presente tão especial me fez pensar em duas coisas: Primeiro eu vibrei ao saber da conexão imediata feita pelo traço que caracteriza meu próprio estilo e o dele. Depois eu questionei: Quais linhas da percepção visual unem o meu trabalho ao desse africano? Até que ponto o processo de construção da imagem é semelhante?
É legal acreditar nesta cumplicidade estética e através dela afirmar que na diferença, nós somos muito iguais.
Seja aqui ou acolá!
Viajei?

A propósito: O nome do autor da imagem é Tunda.

06 outubro 2005

Ir Além

Palavras não são o meu forte. Me dou bem mesmo é com as imagens. Com elas posso voar... posso ser inteiro e sem medo. Simplesmente me lançar e ir além.
Foi pra mostrar e falar de imagens que criei este blog.
Neste meu primeiro vôo, faço minhas as palavras de Cecília Meireles, só pra começar!

"Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a vida e todas as origens.
em todas as existências.
E sabes que serás assim para sempre.
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade. És tu."