"Meu Deus, me dá cinco anos. Me cura de ser grande!" (Adélia Prado)

21 junho 2006

Para além das possibilidades

Eu poderia ficar horas e horas na frente desse monitor tentando encontrar as melhores palavras. Mas não vou fazer isso. Decididamente não hoje. Depois de 9 meses, chegou a hora de encerrar este blog. O mundo de possibilidades, construído no período de “gestação” me ajudou a “parir” um mundo de certezas. Ele já cumpriu o papel para o qual foi criado. Dele quero guardar os 70 textos postados, como se guarda papéis e fotos queridas dentro de livros. Quero que eles fiquem esquecidos (esperando o tempo certo?) na estante e só quando prontos desabrochem de novo. Guardar para lembrar que vivi... acumular estímulos para fazer sentido.
Aconteceu o que eu esperava há muito tempo, mas de forma mais consciente há um ano. Um lampejo, um gosto diferente na boca: doçura? Magia? Procurei no dicionário o sentido exato da palavra renascimento. Mas não me convenceu. O que sinto agora não pode existir como linguagem, léxico, nexo... é meu, é íntimo e privado. É como música que se ouve sorrindo (e até chorando), doce que se come escondido, segredo que se move intacto através dos dias.
Mas o fato é simples, não histórico. Não merece manchetes de jornais ou teorias elaboradas. Respeita um tempo único, próprio dos recomeços. Desafia o espaço, o traçado preciso dos mapas, os limites territoriais da minha vida que, até então, parecia limitada. É capaz de provocar gemidos longos e até emoções desencontradas. Mas respeita uma lei universal. Não necessita de tradução, manual de instruções ou bússola. Carece apenas de um pouco de atenção, esmero ao passar uma camisa, cozinhar um alimento, apontar um lápis...

O que começo a sentir agora desafia a linhagem de uma dinastia inteira. Atravessa istmos, rompe barreiras, funda civilizações. Não cabe em velhos navios nem no fundo dos oceanos. Mas pode ganhar abrigo numa caixa ricamente adornada, onde antigos papéis repousam, guardando a memória do mundo. Chamam isso de muita coisa. Prefiro acreditar que tudo não passa de sentimento que, indo além da inteireza do corpo, consegue tocar a alma. Puro e cristalino como o susto e a calma.

Silêncios necessários

(...)

11 maio 2006

Certezas

Quando a luz que teimava adentrar pelas frestas da persiana tocou serenamente meu travesseiro, percebi que a manhã chegara rápida demais. Subitamente, antes mesmo que a dúvida viesse de encalço para nunca mais partir, algo estranho aconteceu. Olhei pro céu e aspirei profundamente o cheiro daquela manhã de domingo. O que havia de especial nela? O que me mantivera acordado velando o sono de quem estava ao meu lado durante a madrugada? Quem estaria disposto a responder qual o sentido daquilo tudo?
De uma forma ou de outra, me dei conta que estava procurando por algo que fizesse todas as minhas dúvidas passarem devagar, como as primeiras nuvens que se dissipavam no céu alaranjado. Repentinamente senti-me intensamente vivo, com uma urgência doida de ficar olhando toda a cidade acordando quieta e imersa em seus universos pessoais, tão grandes quanto o meu próprio.
Como quem não se sente mais sozinho em um mar de interrogações, fiquei em paz com tudo aquilo, sereno e confortável por estar vivo, sentindo-me parte de uma grande conspiração que incluía até os seres mais inconstantes e duais como eu. E todas as incertezas deixaram de ser cabíveis, e todas as respostas pareciam desnecessárias, ao menos naquele instante. Assim como o amor e o ódio podem ou não mover minha vida sem que eu os veja, apenas sentindo, eu contemplei minutos tão raros quanto intensos, sem provas, sem rastros... me importando apenas em saborear a certeza daquela sétima manhã de maio: desta vez tudo será diferente!

Mundo possível

Não vou deixar essa fagulha insubstituível que arde dentro de mim nos pântanos da desesperança, do não-é-bem-isso, do ainda-não, do não-de-forma-alguma. Não quero, no futuro, que minha alma perceba a solitária frustração pela vida que eu merecia, mas que nunca fui capaz de alcançar.
O mundo que eu desejo pode ser tocado.
Ele existe.
É real.
...e possível.

29 abril 2006

Filmografia

Trechos de filmes que falam por mim.
1. Sobre o prazer de ir ao cinema:
“A gente tem que sentar a uma distância certa da tela. Antes do filme, se fala baixinho. Eu adoro essa parte. A luz vai se apagando devagarzinho e o mundo lá fora também vai se apagando devagarzinho. Os olhos da gente vão se abrindo. Daqui a pouco a gente não vai nem mais lembrar que está aqui. A gente vai conhecer um monte de problemas que a gente não pode resolver. Só eles podem. A graça está em ver como e quando. Shhhh! Está começando!”
(Lisbela e o Prisioneiro)

2. Sobre a infância:
“Os meninos nunca deveriam dormir. Acordam um dia mais velhos. E quando vemos, eles cresceram.”
(Em busca da Terra do Nunca)

3. Sobre o amor:
“Sempre que me entristeço com o mundo penso nos portões de chegada dos aeroportos. Dizem que vivemos num mundo de ódio e ambição, mas eu não acho. Sinto que há amor em todo lugar. Nem sempre algo que valha alguma manchete, mas está sempre ali. Pais e filhos, mães e filhas, maridos e esposas, namorados e namoradas, amigos antigos... Se procurar, creio que descobrirá que o amor simplesmente está em toda parte.”
(Simplesmente amor)

4. Sobre a morte:
“Percebi que tudo é ambíguo. Até a morte. Mas eu vivo com medo. Verdade. Tenho medo dos segundos de consciência antes de você ter certeza de que vai morrer.”
(Antes do Amanhecer)

5. Sobre a vida:
“Este não é um relato de feitos heróicos. É um fragmento de um caminho percorrido (...) Já não sou mais o mesmo. Pelo menos não sou mais o mesmo por dentro.”
(Diários de Motocicleta)

A quem interessar possa

Moço goiano e trabalhador no início da terceira década de vida.
Olhos castanhos-tamarindo. Cabelos pretos com 17 fios brancos.
1,77 m de altura (com vontade de ter 1,80 m) e 74 kg distribuídos de forma quase homogênea.
Introvertido, caseiro e “cinemeiro’.
Em busca da “gozolândia” perdida.
Solteiro.

Dicas para aproveitar idas na locadora

1. Já faça uma listinha prévia de filmes que quer locar e nunca pergunte a algum atendente se determinado filme é bom ou ruim. Eles sempre vão dizer que o filme é o máximo mesmo não tendo assistido a fita.

2. Não fique procurando apenas por filmes inteligentes (mesmo que sejam norte-americanos). A idéia aqui não é crescer interiormente depois do filme de arte. Lembre-se que seu objetivo é sentir uma união com a maioria da raça humana. Vá logo para a seção de lançamentos e pegue filmes de astros famosos, filmes tão idiotas que você apagará da sua mente em menos de 24 horas.

3. Vá com um par. Vídeo-locadoras não são lugares para você andar sozinho. Todos andam em pares. Se não tiver namorada/o, peça para o seu irmão ou irmã ir contigo ou pague um indigente na rua para ir com você. Sempre vou sozinho e me sinto muito só. Além do mais, um dos grandes prazeres destes lugares é você convencer o/a outro/a levar o filme que VOCÊ quer.

4. Os dias ideais para ir à locadora são os do fim de semana, se estiver chovendo, aproveite. De que adiantaria você ir na terça de noite, com todos os filmes disponíveis? Ir a vídeo-locadora é tipo uma caça, uma disputa entre os outros sócios. Tem que ter uma adrenalina, uma esquema competitivo. Quando você vê que tem alguém lendo a sinopse em uma capinha, você fica escondido atrás da prateleira, de tocaia, e aproveita pra pular sobre o filme assim que ela se distrair.

5. Leve uma série de documentos - cartão de banco, de crédito, certificado de reservistas, certidão de nascimento, comprovante de renda e de residência, PIS... Há uma grande burocracia, pois as pessoas acham que você faz parte de uma gangue cujo objetivo é roubar filmes usados.

6. Participe de todo o tipo de promoção oferecida, do tipo pegue 20 vinte filmes para ver entre sábado e domingo e ganhe desconto de R$ 1,00 uma locação. Ignore certas pessoas que insistem em desmascarar essas promoções e nos provar que não vale a pena. Que gente estraga prazer! Nós sabemos que estamos sendo enganados, mas queremos ser enganados!

7. Atrase para devolver. Num tempo de crise, salários pingados, em algum momento da vida você tem que sentir esbanjando dinheiro. Deixe os filmes em cima da televisão e não devolva, porque não deu tempo de ver.

8. Se os filmes são entregues num saco plástico... na hora de devolver, fique com o saco para você. Você sentira uma vitória pensando que passou a perna nos donos de cadeias multimilionárias de filmes ficando com o saco plástico, que usará no lixinho da cozinha!

17 abril 2006

De olhos castanhos

Hoje redescobri a cor dos meus olhos.
Sim! Depois destes anos todos, só hoje me dei conta que já não são mais pretos-jabuticaba e sim castanhos-tamarindo. Será que à medida que envelhecemos, a cor dos olhos vai clareando? Só pode ser assim porque fui olhar na minha certidão de nascimento e estava lá registrado com todas as letras: olhos pretos. De outra forma, eu, o cara das imagens, já teria notado isso há mais tempo.
Esta descoberta, no entanto, me fez pensar nas nuances escondidas por trás desta cor e o que ela, aos poucos, vai re(velando) a meu respeito.
A cor castanha perpassa a opacidade do preto para se manter translúcida na luz.
De outra forma, castanho é também fruto da mistura dos tons terrosos (marrons) com os tons solares (amarelos). É, então, ao mesmo tempo, cor que queima e cor que afaga. Castanho é cor de outono, de tempo seco feito mês de agosto que guarda no seio a seiva da primavera que está preste a explodir em setembro.
A dualidade presente nesta cor me faz um cara sereno e ardente. E nessa ardência serena eu me refugio querendo de vez em quando me entregar.
Quero que a proporção do amarelo vá aumentando à medida que o tempo passe. E assim, de castanhos-tamarindo, com azedume ainda evidente, meus olhos se transformem em castanhos-mel, de doçura ardente e aparente.

14 abril 2006

Lista de Presentes

Faltam 15 dias para o meu aniversário (17 de junho, anotem aí). Então resolvi já disponibilizar minha lista de presentes para que todos/as tenham tempo de sobra pra comprar. É claro que, sendo o cara gente boa que sou, também fiz questão de listar itens com preços variados (pra ninguém ficar de fora ou se sentir excluído/a). E não precisa ficar acanhado/a se, num rompante de generosidade, você decidir antecipar a data. Não sou nem um pouco preconceituoso. Estou aceitando tudo desde já!

- Cd “Universo ao meu Redor” da Marisa Monte (já viu que encarte perfeito?)
- Exemplar da revista Trip do mês de junho (o tema da revista será equilíbrio entre espírito, mente e alma. Tô precisando!)
- Uma festa de aniversário com docinho de leite ninho! (que você pode ter o prazer de organizar)
- Bloco de papel para cartas (daqueles tipo papel de seda)
- Livros antigos com páginas amareladas (pode vasculhar que todo mundo tem um)
- Box com a primeira temporada de LOST (valho o investimento, não valho?)
- Um kit de supérfluos perecíveis (batata frita, skyny, refrigerante, fandango, corneto etc)
- Dvd do filme “O Jardineiro Fiel” (pode deixar que depois eu empresto pra todo mundo assistir)
- Camiseta com emblema de super-herói tamanho “M” (menos do Batman porque já tenho – lá na Hocus Pocus tem pra vender)
- Envelopes para cartas (daqueles com listas verdes e amarelas nas bordas)
- Livro infantil (qualquer um com ilustrações do Roger Mello, da Graça Lima ou da Marilda Castanha)
- Um ingresso de cinema (dou o direito de escolher o filme)
- Qualquer livro sobre Paul Klee (com figura, é claro)
- Jogo “Academia” da GROW (conhecido também como jogo do dicionário)
- Camiseta colorida tamanho "M" sem nada desenhado (pra eu mesmo customizar)
- Filme fotográfico (asa 400, por favor)
- Cartão para celular da Brasil Telecom (eu nunca tenho)
- Livro com poesias da Adélia Prado (ainda não tenho nenhum)
- Um Pólo ou um Kouros (para aqueles/as que queiram me dar perfume)
- Caixa de cds virgens (todos pra gravar músicas)
- Salada lá do Mr. Salada (daquelas que a gente escolhe todos os itens)
- Tênis All Star nº 39 (o meu já está bem gasto)
- Uma caneca daquelas bem divertidas (nas Lojas Americanas tem aos montes)

- Dvd's dos clássicos Disney que faltam na minha coleção: "A Dama e o Vagabundo", "O Cão e a Raposa", "O Ratinho Detetive", "Oliver e seus companheiros", "Toy Story 1 e 2", "Você já foi à Bahia?", "Fantasia" e "Nem que a vaca tussa" (não precisa ser todos, pode escolher um só que já vou ficar feliz!)
- Um cinto bem transado (não vale aqueles clássicos e cafonas)
- Dvd do filme “Lavoura Arcaica” (fantástico!)
- Uma passagem para Caldas Novas (acredita que não conheço a cidade ainda?)
- O livro “Mitologia dos Orixás” ou “Oxumaré, o arco-íris” de Reginaldo Prandi (só as ilustrações são um show!)
- Barra de chocolate "Amaro" da Lacta (hummmmm, deu água na boca!)
- Gibis velhos e/ou antigos (não é bom ler histórias antigas?)
- Livro de Viagens do Zeca Camargo (daquela série do Fantástico)
- Um mouse decente (porque o meu vive com problemas)
- Um cartão super personalizado e feito à mão (com aquela mensagem que faz o coração da gente ficar mais bonito)

Suíte nº 1

Sempre que ouço o prelúdio da Suíte nº 1 de Bach sinto algo no meu mundo interior mudar. A peça barroca, que faz parte de um conjunto de 6 suítes para violoncelo compostas em 1720 não pode solicitar nenhuma outra coisa de quem a ouve, a não ser a mais absoluta entrega. Trata-se, a meu ver (quem me vê falando assim até pensa que entendo de música...) de uma melodia profundamente emocional que inspira uma expressão altamente pessoal. Talvez por isso gosto de ouvi-la à noite, em minhas madrugadas de insônia quando a cidade se esconde sob o véu do silêncio. É como se numa sutil hipnose, os movimentos sonoros e contínuos fossem me conduzindo a um estado de harmonia perfeita.
Nela, minha alma repousa tranqüila e serena. É nela que quero ficar pra sempre.

13 abril 2006

Beijo Beso Bisou Bacio Kiss Kuß Poljub

BEIJO é a palavra da língua portuguesa que mais gosto. Não apenas pelo seu significado, mas principalmente pela sonoridade gostosa aos ouvidos. Tente repetir a palavra e observe a graciosidade do movimento labial e o som que sai parecido ao frio que dá na barriga quando a gente, de carro, sobe e desce bem rápido uma ladeira.
BEIJO em português é palavra de contornos suaves e ondulantes, bem diferente da sua versão inglesa que soa como um troço pontudo e cortante (kiss) ou da versão italiana que lembra o barulho de um chicote na madeira (bacio).
Já pensou na palavra da nossa língua que você mais gosta?
Se sim, manda pra mim!

Fiquei curioso.

Mapa Astral Virtual

Um site que faz seu mapa astral bastando apenas que você saiba a hora do seu nascimento. Coisas das novas tecnologias. Jaciara, minha amiga-bruxa me indicou. Fiz meio incrédulo e não é que deu certo! Diversão de primeira pra quem vive tentando se conhecer ou dar boas risadas. Acessem http://somostodosum.ig.com.br/mapa/

Wolney Fernandes de Oliveira
O Eu interior
Gêmeos é um signo de ar, mutável, positivo, estéril, loquaz e volátil. É regido pelo planeta mercúrio, que simboliza o intelecto, a razão. Identifica-se com a dualidade e tem uma grande habilidade para o trabalho intelectual e os meios de comunicação. Por serem curiosos, e terem tendência à superficialidade, cansam-se facilmente de um assunto e passam para outro assim que dominam o primeiro. Sua mente é engenhosa e hábil, com facilidade de compreensão e assimilação. Têm facilidade de se adaptar à mudanças. Os nativos de gêmeos possuem também habilidade manual, que pode torná-los hábeis (mágicos ou ladrões)!

Gêmeos e o amor
O geminiano é rápido para se apaixonar, e em um relacionamento diz tudo o que pensa. Não sendo muito paciente pode não dar tempo ao parceiro de reagir ou não escutá-lo com suficiente atenção. Ele costuma colocar palavras na boca dos outros. Outro ponto importante é o relacionamento intelectual com o/a parceiro/a, já que ele precisa de um estímulo constante de interesse.

Gêmeos e a casa
Nada é permanente no espaço onde vive o geminiano, a não ser as constantes mudanças. Os móveis, por exemplo, nunca permanecem por muito tempo no mesmo lugar. Por ter medo de se entediar precisam também de um lugar para seus livros e revistas, com os quais se alimentam diariamente.

Ascendente em escorpião
Você parece estar sempre perscrutando o interior para enxergar através e analisar o conteúdo. A passionalidade inerente ao signo também pode ser muito evidente em sua maneira de agir, levando você a procurar satisfazer seus prazeres de forma intensa e profunda. Uma tendência a se envolver de forma exagerada nos relacionamentos amorosos pode se tornar perigosa se mal canalizada. Pouco falante e muito observador você analisa muito, mas não gosta de ser analisado.

Lua em touro
Esta lua lhe confere amabilidade, determinação e perseverança. Tem atração pela arte de maneira geral e pode gostar de objetos de artesanato.Você dá muito valor ao que possui. Por outro lado se a Lua estiver com aspectos negativos, ela pode indicar uma excessiva atração pelos prazeres materiais. Além disso, pode existir um excesso de preguiça, uma sensualidade mórbida e um apego exagerado pelas coisas materiais.

12 abril 2006

Eterno Aprendiz

Já escrevi aqui sobre minha relação meio conturbada com o tempo. Esse “senhor” todo poderoso que, diferente de uma passadeira nos pega pelo avesso e vai amarrotando aos pouquinhos enquanto passa. Devo confessar que é bem difícil, às vezes, sentir as marcas surgindo diante dos meus olhos incrédulos só pra confrontar minha necessidade natural de ver pra crer. No princípio não havia um fio sequer de cabelo branco. Hoje já são mais de 15!
Meus temores diante do tempo me deixam saudosista de um tempo que não volta mais, mas é onde minha cabeça insiste em permanecer. Temo não saber acompanhar esses dois ritmos e chegar aos 60 anos com cabeça de menino de 20. Legal mesmo, penso eu, é ir levando as duas dimensões juntinhas pra curtir cada fase da vida de forma única.
De fato, eu queria era envelhecer com a saliva e o paladar presentes na boca. Envelhecer como o bem que se almejou, enxergando-se à frente do nariz com uma clareza nunca vista antes.
Por hora, tudo é utopia, mas tenho fé que essa paciência divina, que sustenta meu espírito e faz de mim esse menino travesso, sapeca e feliz me dê a doce sensação de ser, para sempre, um eterno aprendiz.

Quem me ajuda a sonhar assim é o Silvio, amigo de distância, poeta ditoso e arquiteto que constrói poemas tão bonitos que depois de lê-los a gente começa a enxergar a vida de um jeito todo gostoso. Foi assim quando li “Tudo bem” o poema que reproduzo abaixo. Pra quem quiser se deliciar com outros textos poéticos, o moço tem um blog apetitoso chamado “Fogo de gelatina em pó”. http://www.silviovinhal.blogspot.com

Tudo Bem
Poema de Sílvio Vinhal


Minha tez no espelho
Não tão clara,
Não tão macia,
Não tão lisa.

Aquele menino continua lá,
Encapsulado,
Olhando através dos meus olhos
E segurando as grades
Da minha vida adulta.

Tudo está bem,
Embora as cores se encantem
Com os matizes gris e prata.
E tudo vá ficando (um pouquinho apenas)
Mais pálido.

Silvio Vinhal diz:
- Hoje sei que existe vida eterna, porque os olhos, mesmo num corpo gasto, revelam que a alma não envelheceu.

História de Semana Santa

Semana Santa lá em Lagolândia tinha cheiro de assombração. Se alguém jogasse baliza ou fizesse qualquer brincadeira que envolvesse “ganhador” e “perdedor” aparecia o “bode preto” lá da Cava e o “boi branco” lá do cemitério. A meninada não podia nem falar mais alto que minha vó ralhava com todo mundo dizendo que os bichos estavam soltos e que podiam escutar nossos risos e virem assombrar a gente de madrugada.
De quinta pra sexta tinha a missa que valia pra quaresma inteira, inclusive pra páscoa, já que o padre só aparecia por lá uma vez no mês. Era quando me vestia de discípulo com túnica de cetim toda brilhante e ia com mais onze amiguinhos ver o Pe. Jesus lavar e beijar os pés cheirando a chulé da turma toda.
Na sexta-feira não se podia varrer casa, nem pentear cabelo e muito menos se olhar no espelho (ainda bem né?). E se alguém quisesse aprender a fazer qualquer coisa com as mãos, tipo tocar violão ou desenhar, era só ter coragem de à meia-noite, ir sozinho até a Igreja e enfiar as mãos por baixo da porta por 5 minutos. Que medo!
Minha mãe, que passava a quaresma inteira prometendo “tirar a aleluia”* da gente no sábado, nem se lembrava disso porque era sempre dia ensolarado de festa, onde podíamos fazer tudo que tinha sido proibido nos 40 dias anteriores. Nossa maior alegria era abrir o baú de brinquedos e de lá retirar todos os jogos que estavam engenhosamente escondidos (bola, dominó, baralho, pega-varetas...) e passar o dia todo matando a saudade das disputas acirradas do jogo de béte no meio da rua... de poder gargalhar com vontade quando a bola era rebatida pra bem longe e a gente, batendo um bastão no outro contava bem rápido: um, dois, tre, ca, ti, no, dé...catinodé, catinodé...

(*) Pra quem não sabe, o termo “tirar a aleluia” era usado pra se referir à surra por qualquer traquinagem que se fazia durante a quaresma. Neste tempo, os pais e as mães não podiam bater nos filhos senão nasciam pêlos nas mãos.

30 março 2006

Lista de irritações

Eu sei, estou há vários dias sem escrever. Estava irritado. Difícil me imaginar assim. Mas acontece. Paradoxalmente, para me acalmar numa destas crises de irritação, resolvi fazer uma lista de coisas que me irritam. No momento da raiva consegui elencar cerca de trinta situações que me tiram do sério. Agora, enquanto escrevo, só me lembro de treze. Confiram:

1. Abrir embalagem de cd ou sachê de maionese sem usar nenhum tipo de instrumento pontiagudo;
2. Esquecer qualquer coisa em casa e só lembrar quando o elevador chega no subsolo;
3. Subir 10 andares para buscar o objeto que esqueci e, ao descer novamente, ver o ônibus que ia pegar passar por mim no exato momento em que coloco o pé na calçada;
4. Acordar às 7 da manhã no domingo sabendo que poderia ficar na cama até às 10;
5. Tentar navegar pelo orkut e sempre me deparar com aquela mensagem chata: “Bad, bad Server, no donut for you”;
6. Entrar na sala de cinema e o filme marcado para as 19:10 só começar a rodar às 19:15;
7. Olhar o cardápio, escolher um item e descobrir que o “bendito” item está em falta.
8. Receber mensagem de auto-ajuda (em power-point) via e-mail;
9. Abrir uma destas mensagens (coisa muito rara de acontecer) e descobrir que é uma corrente daquelas bem chatas que pedem para você enviar a mesma mensagem para não sei quantas pessoas. Argh!
10. Entrar numa loja e descobrir que o objeto que você paquerou ontem já está em falta hoje.
11. Cumprimentar alguém que não vejo há tempos e, antes dela me perguntar se estou bem, ouvir a seguinte pérola: "E aí? Já casou?"
12. Falar com empolgação sobre um assunto qualquer com uma pessoa e ela no meio da minha empolgação dizer: "Menos, Wolney, menos".
13. Tentar lembrar algo que prometi pra mim mesmo não esquecer.

E a lista continua...
Mas minha memória faz questão de falhar justamente agora que mais preciso dela.
Putz! Que droga!
Estou irritado de novo!

Na fila

A imagem era delirante: um mar de pessoas, todas organizadas de forma caoticamente controlada, esperando por atendimento. E foi nessa hora que iniciei um exercício que provavelmente irritaria Buda: peguei uma senha e sentei (com sorte, porque o número de assentos é sempre menor do que o número de almas suplicando por atendimento). Mas com agilidade consegui chegar à cadeira antes da pessoa que acabara de passar por mim na entrada (às favas com o cavalheirismo).
Meu número é o 52 e percebi que o placar eletrônico chamou o 30. Nada mau.
E aí, de frente para os guichês, a diversão de fato começa. São cinco, e apenas dois estão funcionando. Os outros três, solenemente vazios e eu já começo a balançar a perna impacientemente.
Mas nem tudo estava perdido. Logo percebi que uma terceira funcionária tinha voltado. “Agora a fila vai andar” – pensei bem “alegrinho”. A funcionária chegou, cumprimentou muito amigavelmente seus colegas e mostrou que é, afinal, capaz de sorrir.
Para os colegas (que fique bem claro!).
Andou até o seu guichê e quando imaginei que ela ia chamar o próximo da fila percebi que ela, na verdade, ia fazer algo muito mais fundamental: verificar se havia grampos no grampeador. Com a agilidade de movimentos de um homem na lua, abriu o grampeador e constatou que havia grampos. Mas não em número suficiente. Então ela foi até os outros guichês. Enquanto isso, eu já balançava não apenas uma, mas as duas pernas. Ela, então, achou os grampos e voltou ao seu lugar.
Finalmente chamou uma próxima alma, que se arrastou até o guichê, posição de humilhação, porque, a essa altura eu já está disposto a beijar qualquer pé pela cópia do documento que eu precisava. Depois de quase uma hora e meia, meu número foi chamado. Com um suspiro de alívio, de um salto só me posicionei na frente do guichê de atendimento. O homem não sorriu e pareceu não ter expressão ao verificar meus documentos.
- Onde está o comprovante de votação na última eleição?
- Está aí - eu disse sorrindo, parecendo ser simpático, já prestes a gaguejar.
- Você não votou no plebiscito do desarmamento?
"Merda. Então era essa a última eleição!" - pensei.
- Votei, votei.
- Então onde está o comprovante? Sem comprovante não podemos fazer nada.
Sem fala e sem ter a mais remota idéia de onde poderia ter colocado aquele “maldito” papel de medidas microscópicas pude fazer uma constatação importante: o homem sorriu. Foi um riso contido, de canto de boca, mas um sorriso.
- Próximo!
Querendo chorar, eu atravessei a rua repetindo silenciosamente todas as situações que me irritam e que eu consegui listar enquanto esperava na fila. Antes de chegar no ponto, pude ver meu ônibus passar por mim. Foi nesta hora que perdi a fé na humanidade.

29 março 2006

No silêncio do que não foi dito

Sempre soube, em teoria, que a força da palavra escrita é superior à palavra falada. Agora posso comprovar, na prática essa premissa. Esta história de escrever um blog tem me proporcionado boas surpresas. Uma delas é o fato de receber textos de amigos/as que colocam no papel as impressões e sentimentos em relação a mim. Sabe aquelas coisas que a gente só consegue dizer escrevendo? Pois é, foi assim com o texto do Wellington, do Fernando, da Sabrina e agora com este da Jaciara que apresento aqui em sua forma original.

No silêncio do que nunca foi dito


"Há dias me vejo às voltas pensando em fazer um texto para você. Sempre lhe disse que faria um, no dia do seu aniversário ou quando "euzinha" tivesse um blog. Mas hoje eu pensei que vai demorar muito para eu ter um blog e também para o seu aniversário.
Então, levando tudo isso em consideração, resolvi fazer o seu texto 'à mão' mesmo.
Bom, e para começar, até hoje me pergunto como a gente foi se tornando amigos, só me lembro que da minha parte, mais íntimos ficamos no dia em que fizemos nossas confissões sobre o filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Sei que daquele dia em diante nós passamos a compartilhar um assunto que para mim é muito caro.
Sei que temos uma porção de amigos em comum, mas quando estamos juntos sinto que nossa sintonia é tão fina que chegamos a despertar inveja naqueles/as que nos cercam e tentam desvendar que afinidade é essa.
Da minha parte, posso dizer que nossa afinidade está no silêncio do que não foi dito, nas músicas que trocamos, nos filmes e séries que vimos e nas palavras que ainda estão por vir.
E quando digo que estão por vir é que hoje eu tenho 30 anos e fico pensando na falta que você me fez nestes 28 anos em que eu ainda não te conhecia e não podia rir e chorar de muitos assunto caros para mim.
Espero que a gente possa conviver ainda por muitos e muitos anos...
De sua amiga,
Jaciara"

12 março 2006

A Casa do Senhor

Hoje eu descobri onde Deus mora dentro de mim.
Dei uma passada por lá e vi que estava tudo imundo.
Nem um cantinho decente.
E Ele deve dormir em um destes cantos de um jeito desconfortável.
Deu dó.
De que adianta ser Deus se a sua casa fica dentro de um coração esquecido?

10 março 2006

Subject: saudade

----- Original Message -----
From: "sabrina oliveira" <
sabi-ol@hotmail.com>
To: <
wfo@terra.com.br>
Sent: Tuesday, March 07, 2006 2:02 PM
Subject: saudade

>saudade> saudade de você> do seu jeito de menino> do seu olhar sem amor> do seu sorriso amigo> do seu beijo sem ardor> saudade de você> de sua pressa constante> de sua ira repentina> da sua fossa coberta> da sua magia dominante> saudade de você> de sua indiferença> do seu individualismo> da sua presença incostante> do seu realismo> da sua hora marcada> dos seus sonhos brilhantes> saudades de você> do seu abraço apertado> do seu corpo contra o meu> de um momento só nosso> do menino escondido atraz do escudo> de tudo que é você...> > > saudade

sabrina>
abraço forte

26 fevereiro 2006

Desejo de morte

Decidi que quero morrer junto com o mês de fevereiro. Não essa morte conhecida e por tantas vezes temida. Quero morrer a morte dos versos de Elisa Lucinda (veja abaixo) e desta vez levar comigo os 50 textos desse blog, a euforia derradeira do carnaval, meu cansaço e o anel de possibilidades que, agora já não brilha mais como antes.

“A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção
de acordar vivo todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo
sinceramente sucumbo
Há nós que não dissolvo
e me torno moribundo de doer daquele corte
do haver sangramento e forte
que vem no mesmo malote das coisas queridas
Vem dentro dos amores
dentro das perdas de coisas antes possuídas
dentro das alegrias havidas (...)

Elisa Lucinda

Minhas mentiras

Sim, a cada dia surge uma nova coleção de mentiras. As piores são aquelas que conto pra mim mesmo antes de dormir. Cochicho no escuro, dizendo que posso ser feliz assim. Que posso mudar isso e aquilo e tento me convencer que posso viver com meus pecados. Não é uma insônia. É algo que merece bem mais que um texto para ser explicado. Coisas das quais eu nunca estou disposto a falar.
Um erro da minha alma? Pode ser, mas prefiro chamar de inquietação.
Primeiro achei que escrever pudesse ser um acalanto para essa inquietação. Além de sossegar o espírito, colocar no papel os conflitos pessoais, poderia me ajudar a lidar com os meus “caranguejos internos”. Grande decepção! Decididamente meu cacoete é a autodestruição pela resignação.
Por que? Porque não consigo expressar o que sinto de verdade. Sou um fraco. Estou cansado de transpirar positivismo e perseverança enquando corre em minhas veias a tristeza, o medo, a raiva... E isso não pode ser bom. Não em momentos como esse.
Meus pensamentos andam muito rebeldes e avançados para o ritmo e condição quase convencional que venho tentando sustentar. Tentando é ótimo e péssimo. Mas é assim mesmo que me sinto: pensando e escrevendo coisas que jamais faria, dizendo coisas que jamais diria. Ando incontrolável! Mas em uma proporção decepcionante: penso, escrevo e falo ‘de montão’, faço e aconteço ‘de montinho’. É uma ansiedade tão angustiante que mal tenho conseguido dormir... Preciso encontrar o meu equilíbrio, apesar de estar gostando um pouco dessa fase “out of track”.
Enquanto isso, continuo aqui com minhas mentiras. Sim, todas as noites, antes de cair no sono, minto pra mim mesmo, na esperança louca de que, quando amanhecer, seja tudo verdade.

18 fevereiro 2006

Desconstruir certezas e abraçar dúvidas

A semana inteira espero que algo diferente aconteça. Espero uma surpresa, algo completamente inesperado que vai mudar minha vida de cabeça para baixo, uma emoção a mais... E nada! O que me aparece é isso: um sábado cinza. Lá fora um sol que não consegue iluminar ou aquecer aqui dentro. Um sábado solitário e virtual.
Que merda!
Em partes eu culpo essa falta de emoção à reserva que carrego em ser certinho demais, bonzinho demais, educado demais! Tudo demais é chato! Fato confirmado por esta minha aversão ferrenha a sentimentos explícitos – e perdoem-me aqueles que consideram este artifício necessário ou simplesmente válido para se conseguir uma vida mais agitada.
Talvez eu seja um destes limitados, do tipo que não se entrega e não faz do coração uma casa de putas. Mas hoje eu decidi trocar esse tom frio por um quente. Quero desconstruir todas as certezas para abraçar dúvidas (concordo com aqueles/as que realmente me conhecem, que tal decisão soa meio piegas e desmerecida). Não me importo!

Esse texto é pra enterrar – pelo menos hoje (e quem sabe esta semana e no carnaval) - todos os sentimentalismos baratos que ainda insistem em viver dentro de mim. Quero me tornar alguém fácil e leviano com ares de garoto de programa. Sem nenhuma postura, muito menos a de espera.

17 fevereiro 2006

Saudade e Memória e Saudade

“Palácio maravilhoso, caverna misteriosa, dentro da memória estão presentes os céus, a terra e o mar...Dentro dela eu me encontro comigo mesmo...”.
Santo Agostinho

Saudade: local onde minhas memórias podem ser descobertas!
Dia desses, inverto essa lógica.

Ficar para não desaparecer

Estou inquieto e me pergunto:
- É agora, neste instante, que eu devo decidir pra onde ir? Que eu devo acontecer? Eu sou feliz? E amanhã?

Nessa inquietude eu tento responder isso tudo de uma tacada só:
- Não quero riqueza, glória ou sabedoria máxima. Nunca me atraiu. Quero rir e, de certa forma, ter com que pagar. Quero desenhar. Não pretendo uma autobiografia e nem mesmo minhas memórias póstumas. Vida despretensiosa, sim. Um leve sorriso, uma certeza serena do mais simples. O conhecimento do elementar.

Existem pessoas que enxergam a felicidade como um fim, e não como um meio – o mais importante. Há também aquelas que são felizes hoje, e se arrependem por um amanhã tão mal planejado, tão errado. Eu sigo um meio termo de dar dó, mais ou menos feliz aqui para ser mais ou menos feliz ali. Hoje e amanhã...
Talvez seja por isso que eu não quero sair daqui. Tenho medo. Não quero sair deste quarto, deste apartamento, desta cidade, deste pijama, deste computador, deste silêncio. Recuso-me a sair deste texto.
Por hora, esta é minha única ambição: ficar para não desaparecer.

16 fevereiro 2006

Lista

Norah Jones
Niestchie
Detetive
Ruffles
A Bolsa Amarela
Fernando Meireles
Closer
Lasanha
Guaraná Antartica
Faber Castell
Kouros
Antes do Amanhecer
Scarlet Johanson
Sex and the City
Keane
Pamonha de sal
Eros
Garfield
Outlook
Amaro
Silêncio
CorelDraw
Nicole Kidman
Akira Kurosawa
Trident de tutti-frutti
Setor Universitário
Nokia
Charlie Kaufman
Rubem Alves
Jeans
Corneto
Adélia Prado
Rufus Wainwright
Biscoito de queijo
Smallville
Tinta acrílica
Pablo Picasso
Papel Kraft
Evangelho de Marcos
Simbologia
Frida Kahlo
Cinema
Beijo demorado
Anos 80
Livro antigo
Comer
Perfil
Xilogravura
Vitrine
Regina Casé
Paciência
Revista Trip
Andrew Lloyd Weber
China in box
Trebuchet
Chico Bento
Natura
Walter Salles
Marisa Monte
iPod
Limonada suíça
História da Arte
Chile
Mark Ruffalo
Adji
Preto
Hans Zimmer
Água com gás
Eu

14 fevereiro 2006

Terceira e única!

Em toda a minha existência eu só conheci três Jaciaras: A primeira vive na minha cidadezinha natal e é por natureza uma moça desenxabida e sem graça. A segunda, pra ser sincero, eu não conheço assim de conversar. Só de vista. Parece gente boa! Não sei ao certo e por isso não posso dizer muito a respeito. E a terceira é, por excelência, a Jaciara das Jaciaras - perdoem-me as outras que porventura lerem este texto – mas a Jaciara número 3 é única.
Explico o porquê:
1. Que outra Jaciara fala com a mesma propriedade dos conflitos do Oriente Médio e de tudo o que acontece no Big Brother Brasil?
2. Que outra Jaciara se veste como bem entende sem se importar com convenções ou opiniões alheias quando na verdade o que importa mesmo é o frio danado que sente a ponto de vestir blazer preto com cachecol colorido em festa junina?
3. Que outra Jaciara carrega na bolsa, que cabe de tudo, remédios pra todas as doenças que ela pensa que tem e baralhos e livros místicos de bruxarias que ela pensa que faz?
4. Que outra Jaciara se dá ao trabalho de prestar atenção nas letras da Banda Calypso para depois citá-las e ao mesmo tempo te indicar livros do Moacir Scliar?
5. Que outra Jaciara gosta das mesmas músicas e tem os mesmos T.O.C’s que eu?
Não, não há outra Jaciara igual. Isso eu só percebi um tempo depois de conhecê-la (comigo isso é uma constante). Figura fácil nos eventos da CAJU, ela sempre vive rodeada de muita gente. Ela consegue a proeza de ter a confiança de todos/as porque com suas pseudobruxarias sabe do destino de todo mundo. Inclusive o meu. Já leu minha mão, descobriu meu número da sorte, jogou tarô e pelo meu tipo sanguíneo soube me definir Tim-tim por Tim-tim. Somos amigos daqueles que quando se vêem tem mil assuntos pra colocar em dia mesmo tendo se visto no dia anterior.
Nossas diferenças de personalidade revelam o quanto temos almas semelhantes. Nossa amizade é tão gostosa que as pessoas que nos cercam vivem morrendo de vontade de provar desse delicioso sentimento de cumplicidade.
A gente até poderia deixar né Jaciara? Mas não fazemos questão.
Morram de inveja! Rssssss....

12 fevereiro 2006

Números confidenciais

Dia 03. Mês 12. 2005. Sétimo dia da semana.
Oito minutos e vinte e três segundos.
68 dias.

09 fevereiro 2006

Nuances eternas

O texto abaixo não é meu.
Mas fala de mim e mostra nas entrelinhas um sentimento intenso de uma amizade daquelas que vão além das distâncias, das restrições impostas por imprevistos e inconstâncias. O texto revela muitas de minhas nuances vistas pelos olhos de um amigo especial. Nele posso enxergar paralelos que mostram o quanto evoluímos nestes quase 7 anos de amizade pura e sincera. A sensibilidade velada me tocou a alma e por isso resolvi partilhar com todos/as.
Pra você, Fernando, não tenho muito a dizer. Que ironia não? Diante da beleza do seu texto, minhas palavras fogem enlouquecidas, pois não dão conta do recado. Não consigo dizer muito, só sentir.
O que sinto agora é que a eternidade que todos/as almejamos você já alcançou!

Obrigado por me ajudar a variar minha paleta de cores.

Senhoras e senhores!
Com vocês: Eu, por Fernando Lage:

"Senhor da camiseta cor-de rosa customizada

e tênis All Star"

"Lembro-me bem de como começou... Era um ensaio de uma peça teatral no início do ano de 1999. Fui chamado para ajudar no grupo, o qual precisava de muitas pessoas. Seria uma apresentação gigantesca. Na época, eu era uma pessoa muito difícil (não que deixei de sê-la). Sempre estava sozinho e o teatro foi uma valiosa forma de inserção a um grupo e conquistar novas amizades. Foi nesta ocasião que eu o conheci. Aquela pessoa que ficava sempre lá no canto, quase transparente, não cheirou, nem fedeu a princípio.

Com o passar do tempo ele se revelou, em suas atitudes, uma pessoa em nuances de bege e verde pálido: sempre articulado e organizado. Porém muito reservado. Era sempre um porto seguro que tudo sabia e tudo fazia nos bastidores. Boa pessoa para conversar. E o melhor: sempre me levava a sério. Eram muitas as afinidades. Gostávamos das mesmas coisas. Eis que descobri, certa vez que fui a sua casa e vi umas pastas com desenhos, que toda aquela palidez escondia uma profusão de cores, que vez em quanto era posta pra fora por meio de sua arte. De colegas a amigos, não sei como foi a evolução. Só sei que os laços naturalmente foram se estreitando. Papos intermináveis em sua casa. Risos, conversas, confidências. Um irmão mais velho que sempre me ajudou.
Alguém que permaneceu.
Hoje é tão legal ver o quanto nós mudamos e mesmo assim estamos firmes na amizade. Vejo-o hoje com cores mais berrantes. Sua arte explode em nuances de vermelho da paixão e da gula, laranja de seu senso pollyanna, amarelo do sol que ilumina sua criatividade, verde da possibilidade de um dia melhor, azul do mar de possibilidades possíveis, anil de frescor e vivacidade, da mistura da razão com a criatividade e o violeta de sua constante placidez e serenidade. Sua vida é mais bela. Vive cada dia. Hoje é um exemplo a ser seguido por mim. Ele é uma continuidade sem fim de círculos coloridos entrelaçados. Espero um dia que eu possa substituir um pouco de minha “quadradeza” e traços retos pela sensibilidade de seus contornos."

Bendita Carta

Hoje amanheci com vontade de escrever carta (mais do que de receber). Mas não queria escrever carta pra ninguém muito íntimo. Minha vontade era que o destinatário fosse só um conhecido. Matutei por um tempo e de repente Deus me pareceu uma escolha óbvia.

Entre tantos questionamentos que eu me faço, achei que seria uma boa hora pra esclarecê-los. Então lá estava eu, pronto para ter uma conversa de criatura para criador.
Imediatamente peguei lápis e papel – nada de computador desta vez (com Ele tudo tem que soar da forma mais natural possível) – e comecei a escrever (com perdão do trocadilho) a bendita cartinha, a primeira para um destinatário tão influente.

Exercitando o lado b de uma descrença crônica e fazendo uso de minha letra rebuscada, em poucas palavras expliquei tudo o que eu amava e tudo o que eu odiava em sua criação. Entre reclamações e elogios, preferi deixar as grandes questões existenciais de lado. Não iria aborrecê-lo com isso (Ele nunca responderia mesmo). No lugar do trivial, agradeci por eu ser quem eu sou, por saber desenhar, mas reclamei por não tê-lo conhecido melhor antes. Quis saber se algum dia eu chegarei a tocar algum instrumento (violão não vale!). Perguntei também porque os meus temores são como são e se as pessoas que representam o/s meu/s objetos de desejos se empolgariam se eu lhes escrevesse uma carta também. Em uma pequena observação mandei um forte abraço ao seu Filho mais ilustre e, por fim, ainda sobrou tempo para uma última pergunta: “O Demônio existe?”.

Dobrei o papel cuidadosamente e guardei-o dentro do envelope onde escrevi “Para Deus – Endereço: Céu”. Achei que isso bastaria. Quanto ao remetente, preferi deixar em branco, afinal ele é onisciente. A única dúvida era como eu faria para que a carta chegasse até sua caixa postal. Não queria passar por ridículo entrando em uma agência de correios e, mesmo que fosse possível, sairia muito dispendioso. Imagine quantos selos seriam necessários para que a carta fosse entregue em seu destino?

Foi aí eu tive uma idéia. Achei por bem queimar a carta. É claro que todas as letras se transformariam em fumaça e chegariam até Ele. E assim foi feito. Queimei-a ao ar livre e a fumaça subiu calmamente em direção do céu (como uma oferta de incenso). A carta queimou por completo não restou nem mesmo uma cinzinha básica. Tudo virou fumaça, dissipando-se pro alto.
Duvido que Deus não tenha recebido minha carta.
Agora eu continuo por aqui, a espera de uma resposta.

Inconstância


Estou aqui de novo.
Ir, voltar, cansar, sentir falta, ceder, desistir, sumir, tantas vezes, sempre assim, pois é: bendito o dia quando me dei conta dessa (feliz) inconstância.